A Fé na Vida do Cristão

Ultimamente a fé está sendo anunciada como um tipo de “chave infalível” para uma série de conquistas e realizações na vida do homem. Pastores fazem apelos para que as pessoas visitem suas igrejas a fim de aprenderem realmente como usar a fé.

Dias atrás, em um programa de televisão, escutei um desses novos apóstolos do século 21 dizer que se alguém já estivesse cansado de tantas frustrações então deveria frequentar sua igreja, pois lá “o resultado é comprovado”.

Mas será que é isso mesmo? A fé é o segredo para sermos poupados dos sofrimentos e nos abrir as portas para grandes feitos? Se eu sofro hoje é porque tenho pouca fé?

Há muito a ser dito sobre a fé, e não pretendo fazer uma grande exposição sobre o assunto, quero apenas pensar um pouco no que o escritor da Epístola aos Hebreus nos ensina sobre como o cristão deve usar a fé. Para isso vamos utilizar o capítulo 11 da epístola.

Contexto da Epístola aos Hebreus

O escritor de Hebreus, como o próprio nome da Epístola já esclarece, está escrevendo para os cristãos judeus de sua época que provavelmente eram da Diáspora, ou seja, viviam fora da Palestina. Na ocasião, estavam ocorrendo muitas perseguições ao cristianismo, talvez sob o regime de Nero (64 d.C.). Era uma época de muita apostasia, heresias sendo ensinadas por falsos mestres, e judeus cristãos estavam sendo tentados a voltarem ao judaísmo.

Diante desse cenário, o autor trabalha bastante a superioridade do Sacerdócio de Cristo, com uma série de exortações e encorajamentos a respeito da verdadeira fé. No capítulo 11 ele faz uma profunda exposição sobre a fé, e que ficou conhecida por todos como: A Galeria dos Heróis da Fé.

O que é a Fé?

Penso que definir, o que de fato é a fé, foge da nossa capacidade humana, porém o escritor de Hebreus faz uma reflexão muito importante do impacto da fé na vida do Cristão. Logo no versículo 1 encontramos talvez a descrição mais clara sobre a fé presente na Bíblia.

Ora, a fé é a certeza daquilo que esperamos e a prova das coisas que não vemos.
(Hebreus 11:1)

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A Galeria dos Heróis da Fé

Nesse capítulo, o escritor faz uma extensa lista de pessoas, expressando seus exemplos de fé. Ele aborda primeiramente os homens que viveram bem no princípio da raça humana como: Abel, Enoque e Noé.

Depois, ele cita exemplos da era patriarcal, com Abraão, Sara, Isaque, Jacó e José. Ele ainda continua sua exposição com Moisés, e aborda também de forma geral, exemplos dentro da história dos israelitas.

No versículo 32 o autor admite que lhe faltará tempo para considerar todas as pessoas que foram referências de fé no Antigo Testamento, e começa a citar apenas de forma pontual vários exemplos de fé. Em cada exemplo que ele dá é possível lembrarmos de uma, duas ou até três pessoas que viveram tais situações.

Vejamos abaixo resumidamente as lições que podemos aprender com essa reflexão tão inspirada por Deus:

  1. A Fé nos dá a certeza de que Deus cumprirá Suas promessas: na pequena frase do versículo 1 o escritor ensina que somente a fé nos permite enxergar o futuro. Essa “certeza daquilo que esperamos” não é um convite para projetarmos uma série de aspirações na certeza de que se realizarão. Pelo contrário, por meio da fé que temos certeza das promessas de Deus e confiamos em Seu poder. Em poucas palavras podemos dizer que ter a prova das coisas que não vemos é, pela fé, se alimentar das promessas do nosso Deus.
  2. A fé nos revela os planos de Deus: o versículo 3 nos mostra que é pela fé que entendemos as obras e os propósitos de Deus. Nenhum homem esteve presente quando Deus criou o universo. Em um diálogo com Jó o próprio Deus pergunta “onde estavas tu?“. Quando Ele criou todas as coisas ninguém foi Seu conselheiro, e apenas a fé é que nos permite perceber planos tão elevados e sublimes.
  3. Somente pela fé podemos nos aproximar de Deus: no versículo 6 encontramos uma verdade gloriosa e ao mesmo tempo terrível: “Sem fé é impossível agradar a Deus“. Ainda no mesmo versículo aprendemos que a fé é obrigatória para nos aproximarmos de Deus. Não importa se somos capazes, não importa o quanto somos bondosos, não importa o nosso intelecto, nem mesmo o tamanho do reconhecimento das obras que realizamos. Se não tivermos fé, nada disso poderá agradar a Deus. O Apóstolo Paulo também chegou a essa conclusão ao dizer que “tudo que não provém de fé é pecado” (Rm 14:23). Essa fé verdadeira, quando a temos, ela se traduz em frutos, obras que agradam a Deus. Tiago nos explica claramente esse princípio ao dizer que “a fé sem obras é morta“. Ele não estava ensinando que são as obras que mantém a fé viva, mas que a evidência da verdadeira fé na vida do cristão o leva as boas obras. Se alguém que diz ter tal fé mas não possuí tais obras, certamente sua fé é falsa, apenas nominal e histórica, portanto morta, não serve para nada e não agrada a Deus.
  4. A fé nos leva a agir segundo a vontade de Deus: entre os versículos 8 e 29 temos os exemplos dos Patriarcas e de Moisés, que agiram conforme a vontade de Deus, impulsionados por uma fé que os levou a desafiar qualquer raciocínio lógico. Abraão alcançou de Deus o nascimento de seu filho Isaque, por quem havia esperado com muita fé quando já estava em sua velhice. Porém, a fé de Abrão ficou mais evidente quando ele foi ordenado por Deus a oferecer Isaque em holocausto. A fé não estava apenas na obediência que ele demonstrou, mas em considerar como certo aquilo que era impossível, isto é, a ressurreição de Isaque caso ele fosse morto (vers. 19). Para Moisés, humanamente falando, era muito mais cômodo permanecer no Egito. Lá ele vivia como príncipe, tinha tudo do que precisava, porém preferiu ser maltratado junto com o povo de Deus. Somente a fé nos faz abrir mão dos nossos prazeres e agir segundo a vontade e as promessas de Deus.
  5. A fé considera Cristo acima de todas as coisas: no versículo 26 vemos que a fé gera em nós uma esperança que é mais importante do que qualquer outra coisa, por mais valiosa que seja. Moisés trocou o conforto e os tesouros do Egito para sofrer o opróbrio de Cristo. Essa palavra nos traz conforto em saber que mesmo se perdermos tudo que possuímos por amor a Cristo, não significará que nossa fé estará desfalecendo, ao contrário, ela estará mais viva do que nunca e nos conduzindo ao galardão que vem de Deus.
  6. A fé nos faz vencer grandes batalhas: a partir do versículo 30 vemos que a fé nos faz triunfar em grandes batalhas. Foi pela fé que as muralhas de Jericó vieram ao chão. Foi a fé verdadeira que levou Raabe, uma prostituta, a produzir boas obras e, por fim, se tornar uma das ancestrais de Jesus (Mt 1:5). Foi pela fé que os juízes e reis no Antigo Testamento subjugaram reinos e praticaram promessas. Pela fé Daniel, Sansão e Davi fecharam bocas de leões. Foi pela fé que três homens lá na Babilônia sobreviveram ao fogo.
  7. A fé nos faz alcançar grandes milagres: o escritor, no versículo 35, lembra que pela fé mulheres receberam seus mortos ressuscitados. Claramente aqui ele se refere aos eventos ocorridos com o Profeta Elias em Reis 17:22-23, e depois com o Profeta Eliseu 2 Reis 4:36-37, onde, pela fé, duas pessoas foram trazidas novamente a vida.
  8. A fé nos leva ao sofrimento e nos mantém firmes em momentos de grandes dificuldades: se por um lado a fé nos faz vencer batalhas e até mesmo a alcançar milagres da parte de Deus, a fé também pode nos levar ao sofrimento intenso e, em alguns casos, a fé pode custar a nossa própria vida. Esse é o lado da fé que muitos pastores e pregadores não gostam de falar. É fácil pregar que Moisés tocou no mar e ele se abriu, que Elias orou e fogo desceu do céu, difícil é pregar que a mesma fé que os conduziu a estas realizações também fez com que Moisés rejeitasse todo o tesouro e status do Egito para viver andando pelo deserto, e que Elias fosse perseguido pela Rainha Jezabel. Entre os versículos 35 e 38 o escritor cita vários exemplos como situações como essas. Pela fé alguns foram apedrejados, perseguidos, torturados, provados, maltratados, açoitados, escarnecidos, presos, andaram errantes pelos desertos, montes e covas e, por fim, foram mortos. Ele nos avisa que alguns trocaram a própria vida pela esperança de uma futura ressurreição. Ele cita um exemplo especifico de alguém que foi serrado ao meio e, embora não consta na Bíblia, segundo a tradição o profeta Isaías morreu dessa forma. Alguns dizem que se você tiver fé você terá uma vida sem problemas, porém segundo o escritor de Hebreus, a fé também pode ser a causadora de seus maiores problemas nessa vida terrena.
  9. A fé se mantém firme mesmo quando não obtemos a concretização da promessa: o autor nos mostra nos versículos 39 e 40 que mesmo com todos esses exemplos de fé no Antigo Testamento, aquelas pessoas não conseguiram ver a concretização da promessa. Com isso ele quer dizer que, embora vivessem pela fé, eles não puderam presenciar a realização da maior promessa de Deus: a vinda de Cristo. Porém, juntamente com os crentes da Nova Aliança (e aqui nós também estamos enquadrados), estes santos que alcançaram um testemunho tão maravilhoso são justificados em Cristo Jesus e todos nós somos aperfeiçoados nEle. É a fé que nos une em um só corpo, tanto os santos da Antiga quando os da Nova Aliança. Eles viveram pela fé na promessa que haveria de vir, e nós vivemos pela fé no cumprimento da promessa. O maior desejo do cristão deve ser a volta de Cristo, e todos nós esperamos que Ele venha ainda em nossos dias, entretanto, ainda que isso não ocorra enquanto nossa geração estiver viva na terra, nós sabemos, pela fé, que Ele virá e nossos corpos serão ressuscitados dentre os mortos e reinaremos eternamente com Ele.
  10. Ter fé não é sinônimo de perfeição: uma coisa muito interessante que podemos notar na Galeria dos Heróis da Fé é que nenhum deles foi perfeito. Em todos os nomes citados podemos identificar os efeitos da queda em suas vidas. Mas mesmo com a natureza pecaminosa, claramente sabemos que o pecado não era o padrão que eles seguiam. Eles tiveram imperfeições, eram homens como nós, porém constantemente a fé os convidava a andarem na justiça. Com isso, aprendemos que a verdadeira fé nos conduz a um novo padrão de vida e nos leva a santificação. A verdadeira fé, embora em alguns momentos possa parecer enfraquecida, ela jamais irá definitivamente morrer. É diante das nossas imperfeições que podemos reconhecer que a fé não é obra nossa, nem mesmo tem origem na nossa capacidade.

Conclusão

Esses mesmos pastores e novos apóstolos (que citei no início desse sermão), também dizem que não aceitam servir a um Deus grande e viver uma vida de privações e dificuldades. Sendo assim, penso que em outras palavras eles estão dizendo que não aceitam servir o único e verdadeiro Deus, o mesmo dos heróis da fé. Agora eu pergunto:

  • Porque Moisés não realizou uma “campanha de libertação” de sete sextas-feiras com o povo de Israel ao invés de ficar peregrinando quarenta anos no deserto?
  • Porque Elias não fez um “desmanche espiritual” na vida de Jezabel para que ela não fosse mais uma perturbada e o deixasse em paz?
  • Porque Isaías não determinou que parassem de cerrá-lo ao meio?
  • Citando um exemplo no Novo Testamento, porque Paulo não orou por um copo de água e tomou para que seu espinho na carne fosse tirado?
  • Será que eles não serviram o Deus verdadeiro? Será que não tiveram fé?

Quando olhamos para esse capítulo de Hebreus podemos perceber que a fé produz em nós a certeza das promessas de Deus, e nos faz confiar em Seu infinito poder, porém ela não muda os desígnios eternos do nosso Deus, ou seja, não sobrepõe Sua soberana vontade.

No final da exposição do capítulo 11, o autor dessa Epístola nos permite entender uma coisa muita importante. Nos dias de hoje não temos mais o mar se abrindo, não temos mais uma grande muralha sendo derrubada de forma sobrenatural, não temos mais o sol (ou a rotação da terra para quem preferir) sendo detido e o tempo ficando paralisado, não temos mais fogo literalmente descendo do céu e tantas outras coisas.

Isso não significa que não temos mais fé como antigamente, nem mesmo que nosso Deus mudou, ao contrário, isso significa que nosso Deus é imutável e infalível, Seus propósitos são eternos e, todas essas coisas espetaculares aos nossos olhos, apenas serviram para apontar para algo infinitamente maior e superior a todas essas coisas: a obra redentora de Cristo na cruz.

Embora Deus prometa suprir nossas necessidades, o maior exercício de fé não é buscar uma melhoria de vida ou um grande milagre, o maior exercício de fé é ter a certeza de uma nova vida através do maior milagre que pode existir: a justificação em Cristo Jesus, nosso Senhor.

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2 Comentários

  1. Olá, bom dia!

    Agradeço a Deus por conceder sabedoria a ti, e por compartilhar tal conhecimento da palavra de Deus.

    Fico muito feliz em saber que pessoas como você se dedica em propagar o evangelho de Cristo.

    Que Deus o abençoe abundantemente..

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