O Que Significa “Amaldiçoa a Deus e Morre” no Hebraico?

A frase: “Amaldiçoa a Deus e morre” foi o conselho dado pela esposa de Jó durante o seu tempo de grande sofrimento. Mas o que desperta a curiosidade das pessoas é o significado hebraico dessa frase. Isso porque o texto original não traz a palavra “amaldiçoa”, mas o contrário disso, ou seja, “abençoa”.

Na declaração: “Amaldiçoa a Deus e morre” a palavra “amaldiçoa” traduz o hebraico barach que significa literalmente “abençoar”. Então por que as traduções em português aplicam a ideia de “amaldiçoar a Deus” em vez de “abençoar a Deus”? Será esta uma prova de que as traduções da Bíblia não são confiáveis?

É claro não é este o caso. Inclusive, não são apenas as traduções da Bíblia em português que trazem a frase: “Amaldiçoa a Deus e morre”, mas também as traduções nos principais idiomas do mundo, como o inglês e o espanhol. E obviamente todas essas traduções ­– incluindo as traduções em português – são muito boas e confiáveis.

“Amaldiçoa a Deus e morre” é um erro de tradução?

Infelizmente na atualidade tem crescido um movimento que tenta desacreditar as traduções da Bíblia. O curioso é que esse movimento tem partido de pessoas sem qualquer autoridade nos idiomas bíblicos originais. São pessoas que geralmente fizeram um curso online de hebraico ou que compraram uma “super apostila” de hebraico de um professor sem qualquer formação acadêmica.

E essa pessoas, depois de terem decorado o alfabeto hebraico, se convenceram de que entendem mais dos idiomas originais do que os eruditos envolvidos nas traduções da Bíblia. Mas traduzir um texto bíblico ou fazer sua exegese a partir do idioma original são tarefas que vão muito além do que simplesmente encontrar palavras em dicionários de hebraico, ou fazer transliterações com as famosas apostilas de hebraico bíblico. Existe todo um contexto, nuances e particularidades que precisam ser consideradas.

Apenas para esclarecer, para que um trabalho de tradução ou de revisão de uma tradução da Bíblia seja desenvolvido, uma comissão de tradução é criada. Essa comissão é formada por linguistas com amplo currículo acadêmico nos idiomas originais da Bíblia.

Obviamente esse não é um trabalho fácil, pois estamos falando de idiomas antigos que não são mais falados no mundo. Sim, o hebraico e o grego dos textos originais da Bíblia não são os mesmos falados hoje em Israel e na Grécia ­– sem contar o aramaico.

E também é preciso admitir que as traduções e até mesmo as cópias, não são infalíveis. Inerrantes são apenas os autógrafos, ou seja, os manuscritos originais. Então há sim palavras que podem ter sua tradução melhorada, e as comissões de tradução reconhecem isso e, inclusive, trabalham sempre em novas revisões e atualizações. Então considerando tudo isso, vamos entender por que a tradução: “Amaldiçoa a Deus e morre” está correta.

“Amaldiçoa a Deus e morre” ou “Abençoa a Deus e morre”?

Como foi dito, de fato a palavra original nessa frase é o hebraico barach que significa “abençoar”. Porém, essa mesma palavra também é aplicada nos textos bíblicos para transmitir justamente a ideia contrária ao ato de abençoar.

Por exemplo: na história da vinha de Nabote, o texto que registra o julgamento que foi armado para condenar aquele homem que se negou a negociar sua vinha com o rei Acabe, diz o seguinte: “E ponde defronte dele dois homens, filhos de Belial, que testemunhem contra ele, dizendo: Blasfemaste contra Deus e contra o rei; e trazei-o fora e apedrejai-o para que morra” (1 Reis 21:10).

A palavra “blasfemaste” nesse versículo traduz o mesmo termo hebraico barach que significa “abençoar”. Mas obviamente Nabote não poderia estar sendo acusado de “abençoar a Deus”. Então o sentido correto da frase é que Nabote estava sendo acusado de ter “amaldiçoado a Deus”.

No livro de Jó esse mesmo princípio se repete em outros versículos. No capítulo 1 o texto bíblico diz que Jó se levantava de madrugada e oferecia holocaustos em favor de seus filhos porque ele temia que eles tivessem “blasfemado contra Deus em seu coração” (Jó 1:5). Novamente a palavra “blasfemado” traduz o hebraico barach. E é óbvio que Jó não oferecia sacrifícios por temer que seus filhos tivessem “abençoado a Deus”.

Ainda no livro de Jó, quando Satanás se apresentou perante Deus, ele alegou que era um crente infiel e interesseiro, pois se caso ele perdesse tudo o que possuía certamente ele haveria de blasfemar contra o Senhor (Jó 1:11; 2:5). Em todas essas referências a palavra hebraica que aparece é barach, mas o contexto deixa claro que ideia de “abençoar” não faz sentido. Portanto, a tradução correta da declaração da mulher de Jó de fato é: “Amaldiçoa a Deus e morre”.

Por que “abençoar” em vez de “amaldiçoar” no hebraico?

Aqui surge uma pergunta: Por que no texto original a palavra “abençoar” e usada em vez da palavra “amaldiçoar”? Sobre isso várias sugestões são apresentadas. A mais provável é que o nome de Deus era considerado tão sagrado para os israelitas, que jamais eles escreveriam uma frase que propusesse que Deus fosse amaldiçoado.

Então eles substituíam a palavra “amaldiçoar” pela palavra “abençoar”, num tipo de eufemismo facilmente perceptível à luz do contexto. Portanto, em casos assim o hebraico barach também possuía um sentido antitético de “amaldiçoar”, “praguejar” ou “blasfemar”.

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Entendendo o que a mulher de Jó disse

Antes de propor a Jó: “Amaldiçoa teu Deus e morre”, a mulher de Jó lhe perguntou: “Ainda reténs a sua integridade?” (Jó 1:9). Note que o conselho da mulher de Jó significava exatamente que Jó deveria abrir mão de sua integridade. Ninguém abre mão de sua integridade por abençoar a Deus.

Além disso, após ouvir o conselho de sua mulher, Jó foi duro em sua resposta: “Como fala qualquer doida, assim falas tu; receberemos o bem de Deus e não receberíamos o mal?” (Jó 2:10). Além do mais, na sequência o texto ainda acrescenta: “Em tudo isto não pecou Jó com os seus lábios” (Jó 2:10). Então a sugestão de algumas pessoas que dizem que a mulher de Jó aconselhou o marido a “abençoar a Deus” – num tipo de licença para morrer – não se harmoniza ao contexto.

Algumas pessoas argumentam que a repreensão de Jó foi devido a sua esposa tê-lo proposto a morte. Mas aqui fica claro que o conselho da mulher de Jó era uma proposta de fazer Jó pecar “com os seus lábios”. Embora não soubesse, naquela ocasião a mulher de Jó estava sendo propagandista da intenção de Satanás – que era fazer Jó amaldiçoar a Deus.

Por que a esposa de Jó disse para ele amaldiçoar a Deus?

Mas aqui precisamos reconhecer que não sabemos exatamente em que sentido aquela mulher fez essa proposta. Alguns estudiosos pensam que suas palavras eram o reflexo de sua própria revolta contra Deus e de sua falta de fé. Ela não tinha aceitado o que havia acontecido com Jó e julgou que manter a integridade naquela situação era inútil.

Se esse for o caso, então ela propôs que Jó amaldiçoasse a Deus antes de morrer, ou seja, enquanto ainda era tempo. Nesse sentido, ela queria mais que Deus fosse amaldiçoado por tudo o que estava acontecendo, do que ver o fim do sofrimento do marido. Talvez ela pensasse que Deus não tinha sido justo com eles.

Outros estudiosos pensam que as palavras da mulher de Jó eram as palavras de uma esposa amorosa contemplando o sofrimento do marido. Se esse for o caso, então ela não aguentava mais ver a dor de Jó e queria que ele finalmente descansasse. Então como o resultado de amaldiçoar a Deus era a morte, talvez ela tenha deduzido que se Jó blasfemasse, a ira de Deus seria derramada sobre ele e colocaria fim ao seu sofrimento (cf. Levítico 24:10-16).

Seja como, é notável a forma como a tentação de Satanás foi apresentada a Jó com sutileza. Nesse ponto específico a tentação saiu dos lábios de sua companheira, da pessoa mais próxima em sua vida. Então isso mostra que algumas vezes Satanás pode lançar ideias através de pessoas queridas para nos fazer tropeçar.

Isso, inclusive, aconteceu com o apóstolo Pedro, quando Jesus falou sobre sua morte iminente e ele não quis aceitar. A princípio seu protesto parecia ser a declaração de um discípulo preocupado, mas por traz dele havia a sugestão de Satanás de fazer Cristo desistir da cruz (Mateus 16:22,23).

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