Não Toque no Ungido?

Não toque no ungido! Quem nunca escutou algo parecido? É comum ouvirmos expressões como: “não toqueis nos meus ungidos”, ou: “não toque no ungido do Senhor”, sendo utilizadas por muitas pessoas como um tipo de aviso intimidador. Infelizmente muitos líderes evangélicos usam tais frases com o objetivo de amedrontar os membros de suas igrejas.

Normalmente as pessoas que usam o lema “não toque no ungido” apelam para a Bíblia. Pastores, bispos e apóstolos modernos são rápidos em dizer que é a Bíblia que ensina esse princípio. Mas será que é isso mesmo? A Bíblia ensina que não se pode tocar no ungido do Senhor? O ato de se opor a um líder evangélico representa um risco de levar uma maldição e ser castigado?

Não toque no ungido do Senhor: os versículos bíblicos

Várias passagens na Bíblia trazem expressões semelhantes ao famoso “não toqueis nos ungidos do Senhor” (1 Crônicas 16:21,22; 1 Samuel 24:6; 26:9; 2 Samuel 1:14; Salmo 105:15). Dentre todas essas passagens, talvez os textos de 1 Crônicas 16:21,22 e Salmo 105:15 sejam os mais conhecidos.

A ninguém permitiu que os oprimisse, e por amor deles repreendeu reis, dizendo:
Não toqueis os meus ungidos, e aos meus profetas não façais mal.
(1 Crônicas 16:21,22)

Não toqueis nos meus ungidos, e não maltrateis os meus profetas.
(Salmos 105:15)

Creio que uma leitura simples destas passagens já nos mostra a relação direta entre ambas. Obviamente elas se referem ao mesmo assunto. Trata-se de um salmo de Davi onde ele celebrou a entrada da Arca da Aliança em Jerusalém como sendo um ato poderoso de Deus.

Em seu cântico, Davi relembrou as maravilhosas obras do Senhor em favor de Israel ao longo da história. Ele falou sobre as promessas e livramentos que Deus concedeu ao Seu povo desde a época dos patriarcas, Abraão, Isaque e Jacó, nos períodos de perambulações do povo até a conquista da Terra Prometida.

Outros textos que são muito utilizados por quem recorre ao “não toque no ungido”, são aqueles que tratam da relação de Davi com Saul. Esses textos falam, principalmente, sobre a relutância de Davi em não fazer mal ao rei. Ele reconhecia Saul como um ungido do Senhor.

Um desses textos é 1 Samuel 24:6. Nele lemos sobre como Davi teve uma grande oportunidade de matar Saul. Mas Davi declinou dessa possibilidade dizendo que não se atreveria a estender a mão contra Saul, “pois é o ungido do Senhor”. Em 1 Samuel 26:9 encontramos uma situação muito semelhante. Davi não permitiu que Abisai matasse Saul, argumentando que aquele que toca no ungido do Senhor não ficará inocente.

Finalmente, quando Saul foi morto, Davi não poupou o homem que o matou, e antes de ordenar sua morte, ele lhe interrogou dizendo: “Como não temeste tu estender a mão para matares ao ungido do Senhor?” (2 Samuel 1:14).

Não toque no ungido: como interpretar esses versículos?

Nos salmos que citamos acima, onde aparece a expressão: “não toqueis nos meus ungidos, nem maltrateis os meus profetas”, podemos perceber que Davi está citando o livro de Gênesis (capítulos 12:10-20; 26). Com isso, ele mostra como Deus repreendeu os reis tiranos que queriam destruir o Seu povo escolhido.

Vale lembrar que em Gênesis 20:7, Abraão é mencionado como um profeta. Logo, fica claro que a menção acerca dos “ungidos” e “profetas” se refere ao povo escolhido do Senhor que estava em formação.

Já no caso de Davi e Saul, precisamos entender o conceito da expressão “ungido do Senhor” naquele momento da história. Os reis de Israel eram homens designados por Deus para ocupar o cargo de liderança no meio do povo. Essa designação era oficializada através da unção realizada por um juiz ou profeta.

Basicamente o juiz ou profeta derramava um óleo sobre a cabeça do escolhido e assim ele era oficialmente separado para ocupar o cargo. Podemos ver exatamente esse procedimento na escolha de Saul (1 Samuel 10:1). O mesmo também aconteceu posteriormente na escolha de Davi (1 Samuel 16:13).

Diante dessa realidade, Davi não se atreveu a atentar contra a vida de Saul. Ele não queria ser culpado de matar aquele que ocupava um cargo designado por Deus, mesmo que Saul fosse indigno.

Entretanto, o fato de Davi não querer matá-lo, não o tornou passivo ao modo ímpio com que Saul governava. Davi confrontou Saul, e diante de todo o exército de Israel pediu a Deus vingança. Em outras palavras, Davi pediu que Saul fosse castigado pelos pecados que cometera (1 Samuel 24). Na verdade, Davi sabia que no tempo certo Deus mataria Saul por conta de sua conduta reprovável (1 Samuel 26:9-10).

Não toque no ungido: o que a Bíblia realmente ensina?

Acredito que após citarmos os versículos e seus respectivos contextos, já esteja mais do que claro que não podemos aplicar o conceito de não tocar no ungido da maneira como muitos fazem. Definitivamente o “não toqueis no ungido do Senhor” não significa um tipo de escudo ou proteção divina que garante imunidade aos líderes evangélicos da atualidade.

Infelizmente em muitos lugares os líderes fazem o que querem. Eles distorcem a Palavra de Deus, levam uma vida de pecado e ainda manipulam o povo com esse tipo de argumento descabido de que ninguém pode ousar tocá-los, pois são ungidos do Senhor.

Obviamente nós devemos respeitar e apoiar nossos líderes. É nosso dever orar por eles e acatar a autoridade eclesiástica que possuem, mas desde que eles estejam agindo de acordo com a Palavra de Deus. Eles precisam estar compromissados com a sã doutrina e refletindo em suas condutas o caráter de Cristo.

Entretanto, quando algum líder apresenta um modo de vida reprovável e começa a agir de modo contrário ao que as Escrituras ensinam, ele deve ser prontamente repreendido para que a igreja não sofra o dano de sua má liderança. A própria Bíblia recomenda exatamente o que deve ser feito nestes casos. Escrevendo a Timóteo, o apóstolo Paulo aconselha o seguinte tratamento para com os líderes que errarem:

Não aceites acusação contra o presbítero, senão com duas ou três testemunhas.
Aos que pecarem, repreende-os na presença de todos, para que também os outros tenham temor.
(1 Timóteo 5:19,20)

Perceba que Paulo primeiramente considera que deve haver uma boa fundamentação na acusação contra um presbítero (equivalente no texto para pastores/bispos). Depois, comprovado o erro do líder, ele deve ser repreendido na presença de todos. Essa é uma atitude necessária e extremamente importante, “para que também os outros tenham temor”. Ao dizer isso, Paulo expressa sua preocupação em manter a congregação saudável.

Na Epístola aos Gálatas, encontramos na prática algo parecido com a recomendação de Paulo a Timóteo – claro, guardadas as devidas proporções. Paulo repreendeu o apóstolo Pedro na presença de todos por conta de um comportamento errado que ele havia adotado e que estava causando prejuízos à Igreja (Gálatas 2:14).

Mesmo no Antigo Testamento, encontramos vários exemplos de homens escolhidos pelo Senhor que foram duramente repreendidos por conta de algum erro que cometeram. Talvez o caso mais famoso seja o do próprio rei Davi. Ele foi repreendido pelo profeta Natã por conta de seus pecados em relação a Urias e Bate-Seba (2 Samuel 12:1-14). Nesse caso específico, Natã confrontou literalmente um ungido de Deus, e nem por isso foi acusado de ter tocado no ungido.

Já no Novo Testamento, encontramos vários casos em que verdadeiros homens de Deus eram perseguidos e caluniados injustamente. Mesmo diante de tal realidade, nós não os encontramos recorrendo a esse tipo de ameaça para se defenderem.

Novamente o apóstolo Paulo, agora escrevendo aos Coríntios, declarou que para ele parecia que Deus havia colocado os apóstolos em último lugar, como se fossem condenados à morte. Eles padeciam fome, sede, carência de recursos, eram esbofeteados, injuriados, perseguidos, difamados e considerados a escória do mundo (1 Coríntios 4:8-16).

Vale ressaltar que Paulo estava escrevendo para a própria congregação que tinha fundado, mas que seus membros o tratavam de uma maneira terrível. Porém, perceba que mesmo diante de tudo isso, não encontramos Paulo rogando uma praga contra os crentes de Corinto.

Ao invés de Paulo escrever: “Ai de vocês, pois tocaram no ungido do Senhor”; ele escreveu: “Sejam meus imitadores” (1 Coríntios 4:16). Quanta diferença não é mesmo?

Paulo não precisava se esconder atrás de uma suposta imunidade que sua posição garantia. Seu comprometimento com o Evangelho de Cristo era suficiente para colocá-lo como um exemplo entre as pessoas.

Hoje, todos os homens que apelam para a famosa ameaça: “não toque no ungido”, fazem isso por não poderem dizer: “sejam meus imitadores”. Diferentemente do apóstolo Paulo, não há neles nada de integro a ser imitado, e nenhum exemplo bom a ser seguido.