Antes subir ao céu, Jesus deu a seguinte ordem: “Portanto ide e fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo” (Mateus 28:19). Este versículo é um dos mais conhecidos da Bíblia. Ele é muito lembrado principalmente quando o assunto é a evangelização.
Embora sua aplicação sirva corretamente a esse propósito, poucas pessoas conhecem um detalhe interessante nessa passagem. Por conta disto, ultimamente é comum ver pessoas interpretando e aplicando a frase “ide e fazei discípulos” de uma forma equivocada.
O significado do “ide”
É comum ouvir alguém dizer que temos que fazer o “ide” que Jesus ordenou, porque o “ide” é a tarefa da Igreja. Normalmente quando se interpreta esse versículo, a ênfase é colocada sempre no “ide”. O mesmo acontece com a passagem correlata em Marcos, onde geralmente é destacado o “ide por todo o mundo” (Marcos 16:15).
Confesso que nunca tinha visto problema nessa interpretação até que certa vez fui questionado por uma aluna acerca de um “excelente” trabalho evangelístico que uma determinada denominação estava realizando. O problema é que tal denominação é um centro de heresias. Ao expor a essa aluna a verdade sobre as heresias pregadas por tal denominação, ela me respondeu o seguinte: “Ah, pelo menos eles estão fazendo o ide que o Senhor ordenou”.
Foi aí que eu percebi que talvez houvesse um problema com essa interpretação tão popular. Minha resposta para ela foi em forma de outra pergunta, a mesma que agora repito para você que está lendo este texto: Qual é o verdadeiro significado desse “ide”?
Quando falei que poucas pessoas conhecem um detalhe interessante nessa passagem, me refiro ao modo com que o texto é construído no texto grego. Sem entrar em muitos detalhes cansativos sobre a gramática grega, podemos dizer que o verbo “ide” não está no imperativo. Na verdade o “ide” está no particípio, qualificando o imperativo da frase. Isto significa que no grego a ordem dada por Jesus Cristo é o “fazei discípulos” e não o “ide”.
Nessa sentença o “ide” apenas determina a maneira pela qual a ordem de se fazer discípulos é cumprida. Mesmo com esse detalhe, como já disse, nunca vi problema na interpretação popular que coloca o “ide” como sendo a ordem da sentença. Afinal, para fazermos discípulos devemos “ir”.
A questão toda é que através dos argumentos da minha interlocutora, percebi que ultimamente as pessoas estão concentradas apenas em “ir”. Elas enfatizam, sobretudo, o “ide”, e, de fato, estão indo. Mas o ponto chave é: Indo para onde? Indo fazer o quê?
Fazei discípulos
O problema não está no entendimento do significado do “ide” ou na forma com que ele é aplicado. O problema está na falta de compreensão acerca do que realmente é a ordem “fazei discípulos”. Qualquer um pode “ir”. Uma seita pode ir. Uma denominação que prega heresias pode ir. Até mesmo um incrédulo pode ir! Mas o “fazei discípulos” é que não é para qualquer um. Para que não houvesse dúvida, o próprio Jesus nos esclarece que é somente pela pregação do Evangelho que podemos fazer discípulos (Marcos 16:15).
Sem o Evangelho verdadeiro é possível fazer espectadores para os cultos. É possível fazer público para as apresentações da igreja. É possível fazer consumidores para o mercado gospel, clientes para as “campanhas santas”, e ativos para o relatório financeiro do mês. Só não será possível fazer discípulos como Jesus ordenou.
Somente a mensagem que expõe a verdade sobre o pecado e aponta para o Cristo ressuscitado é que pode gerar discípulos verdadeiros para o reino de Deus. Essa mensagem não é seletiva. Ela não está interessada em quem pode oferecer mais ou menos. Ela não está fundamentada no mérito humano. Mas essa mensagem iguala todos os pecadores à condição de inimigos de Deus, a menos que sejam reconciliados com Ele através de Cristo. Daí entendemos o ordem: “Ide e fazei discípulos de todas as nações”.
O povo comprado por Cristo provém de todos os povos, línguas e nações. Estes discípulos então devem ser batizados como sinal de que foram regenerados, remidos de seus pecados e unidos com Cristo.
Apenas ir não basta. A ordem do Mestre é que façamos discípulos. Como faremos isto? Simples! Indo pelo mundo, pregando o Evangelho! Até podemos continuar encarando o “ide” como imperativo, desde que esse nosso “ir” necessariamente resulte no “ir” de pecadores a Cristo através da Palavra genuína.