A Mordomia da Alma e do Espírito

Quando se fala em mordomia da alma e do espírito, geralmente se tem em mente o bom cuidado do aspecto imaterial do ser humano. Mas aqui é preciso considerar que historicamente os cristãos têm entendido essa questão de diferentes maneiras. Alguns consideram que a alma e o espírito são exatamente a mesma coisa vista de ângulos diferentes; enquanto outros consideram que são coisas distintas.

O primeiro grupo normalmente é conhecido como dicotomista. Os cristãos dicotomistas acreditam que a unidade da pessoa do homem é formada por dois elementos. Um elemento é material, e o outro é imaterial. O elemento material é o corpo; e o elemento imaterial é o que a Bíblia chama de alma ou espírito. No contexto do nosso estudo, para esse grupo a expressão “mordomia da alma e do espírito” é simplesmente uma repetição de termos sinônimos com o objetivo de dar ênfase a uma ideia.

Já o segundo grupo normalmente é reconhecido como tricotomista. Os cristãos tricotomistas acreditam que o ser humano, como uma unidade, embora possa ser tratado de forma dicotômica no sentido de que ele é constituído de uma parte física e de outra não-física, sua parte não-física também pode ser distinguida em duas substâncias intimamente ligadas, mas distintas. São elas: alma e espírito. Então para esse grupo a expressão “mordomia da alma e do espírito” de fato refere-se ao cuidado de dois elementos distintos da parte imaterial do homem.

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A discussão sobre alma e espírito

Como vimos, historicamente os cristãos têm se dividido quanto à conceito bíblico de alma e espírito. Tanto a visão tricotômica quanto a dicotômica da antropologia bíblica são realmente muito antigas dentro Cristianismo.

A tricotomia, por exemplo, foi ensinada desde o tempo dos pais da Igreja, e ganhou projeção principalmente entre os pais alexandrinos. Já a dicotomia é tão antiga quanto, e durante muitos séculos foi a visão predominante, ou praticamente única, acerca deste assunto dentro do pensamento cristão – visto que entre os defensores da tricotomia surgiram ideias completamente injustificáveis biblicamente e que muitas delas foram identificadas como heresias.

A tricotomia voltou a ganhar popularidade novamente apenas a partir do século 19, quando alguns teólogos ingleses e alemães começaram a defender essa posição. Então dentro do estudo teológico, podemos dizer que a dicotomia é a visão mais tradicional e, até o século 19, a mais amplamente defendida.

No geral, os tricotomistas dizem que a Bíblia indica essa tripla divisão do ser do homem. Para tanto, eles se apoiam principalmente em dois textos bíblicos: 1 Tessalonicenses 5:13 e Hebreus 4:12. Segundo os tricotomistas, esses textos validam a alma e o espírito como coisas diferentes. A maioria dos tricotomistas define a alma como sendo a parte imaterial do homem que forma sua personalidade; e o espírito a parte através da qual o indivíduo interage em questões espirituais.

Os dicotomistas, por sua vez, rejeitam essa ideia e defendem que a Bíblia fala da alma e do espírito como sendo uma única parte imaterial do homem vista por ângulos diferentes. Isso significa que “alma” e “espírito” são termos equivalentes usados de forma intercambiável pelos autores bíblicos. De fato “alma” e “espírito” traduzem palavras hebraicas e gregas que são aplicadas com diferentes propósitos e significados.

Quanto aos textos que aplicam lado a lado os termos “alma” e “espírito”, como 1 Tessalonicenses 5:13 e Hebreus 4:12, os dicotomistas entendem que neles os autores bíblicos empregam uma repetição de palavras sinônimas; um tipo de paralelismo para enfatizar a ideia de totalidade da pessoa do homem.

A origem da alma

Entre os teólogos há também uma discussão acerca da origem da alma. Nesse sentido há três teorias principais: criacionismo, traducionismo e pré-existencialismo.

Dentre as três teorias, a mais problemática e completamente estranha ao ensino bíblico é o pré-existencialismo. Essa teoria diz que as almas existem no céu num estado anterior ao corpo. Então supostamente elas são enviadas por Deus ao embrião que é gerado no ventre.

Não é difícil ver as ligações entre essa teoria e os ensinamentos da filosofia pagã que enxerga no corpo uma punição para a alma. Além disso, como diz Wayne Grudem, ela está perigosamente ligada com as ideias de reencarnação. Orígenes chegou a defender o pré-existencialismo como origem da alma.

A teoria criacionista tenta explicar a origem da alma dizendo que Deus cria a alma de cada pessoa e a envia ao corpo em algum momento incerto; mas que ocorre após a concepção e antes do nascimento. Então de acordo com essa teoria, cada alma humana deve ser vista como uma imediata criação de Deus por ocasião da concepção e nascimento de cada indivíduo. Entre os defensores de alguma forma de criacionismo estão Jerônimo, Tomas de Aquino e Calvino.

Por fim, a teoria traducionista diz que a alma do homem origina-se mediante a reprodução. Isso significa que alma é reproduzida naturalmente pela ocasião da concepção, e nesse aspecto é herdada dos pais. Tertuliano, Apolinário, Gregório de Nissa, Lutero e Jonathan Edwards são alguns dos que adotaram o traducionismo.

Tanto o criacionismo quanto o traducionismo tem pontos fortes e pontos fracos. As duas teorias também foram defendidas por estudiosos muito capacitados. Por isso é prudente reconhecer que há muitos mistérios envolvidos nessa questão, e que a Bíblia não se propõe a nos fornecer uma explicação. Talvez a melhor posição seja admitir que haja certas verdades bíblicas tanto no criacionismo quanto no traducionismo. Agostinho, por exemplo, foi um dos eruditos cristãos que se recusaram a adotar decididamente uma das duas teorias.

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Como o cristão deve entender a questão da alma e do espírito?

Os tricotomistas e dicotomistas têm em comum a defesa da existência de uma parte da pessoa do homem que sobrevive à morte. Nisto as duas posições se opõem diretamente contra qualquer conceito monista absoluto que afirme que o homem é uma unidade radical indivisível e, no final, puramente materialista.

Além disso, essa discussão acerca da alma e do espírito é de caráter secundário. Há cristãos genuínos que acreditam que o homem é formado por corpo, alma e espírito; e outros que acreditam que o homem é formado por corpo e alma/espírito.

Sem dúvida o grande problema a ser evitado sobre isso é a tendência de enxergar a parte material do homem como sendo inferior à sua parte imaterial. Esse tipo de pensamento não é bíblico e na verdade expressa o antigo pensamento grego acerca da constituição do homem. Na filosofia grega a parte material do homem é algo ruim que enclausura sua parte imaterial. Por isso em nenhuma parte o pensamento grego considera a ideia de ressurreição do corpo.

Mas a doutrina bíblica apresenta o homem como uma unidade. Isso significa que o homem não deve ser visto como um ser dividido em várias partes mais ou menos valiosas. Porém, é verdade que embora seja um ser unitário, essa unidade é também complexa e composta.

Isso quer dizer que sem a união da parte material e da parte imaterial não há um ser humano completo. Por isso que a Bíblia enfoca a doutrina da ressurreição do corpo. Com a morte, o aspecto imaterial do homem continua existindo; mas o indivíduo só será completo novamente por ocasião da ressurreição. A obra da redenção compreende na salvação da pessoa do homem em sua inteireza.

Então seja qual for a posição adotada quanto a definição de alma e espírito, o crente deve prezar pela fiel mordomia do aspecto imaterial de sua pessoa. Da mesma forma que a Bíblia exorta acerca da mordomia cristã do corpo, ela também adverte acerca da necessidade da boa mordomia da alma e/ou do espírito. Isso quer dizer que todo nosso ser deve estar alinhado à vontade de Deus e completamente comprometido em adorá-lo.

1 comentário em “A Mordomia da Alma e do Espírito”

  1. Ótima aula, para aprendermos mais sobre a palavra de Deus e estilo adoração estão de parabéns, a cada dia se aperfeiçoando neste ensino bíblico.

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