Esaú e Jacó: Isaque Abençoa Jacó ao Invés de Esaú

Esaú e Jacó protagonizaram na Bíblia uma história de grande rivalidade entre irmãos. Inclusive, o texto bíblico diz que Jacó tomou a bênção de Esaú ao enganar Isaque. Por isso o episódio em que Isaque abençoa Jacó mostra as fragilidades e os erros da família da aliança.

Jacó recebeu a bênção de Isaque, mas a forma como isso aconteceu foi um tanto quanto obscura. Dissimulações, mentiras, ódio e falta de discernimento espiritual e confiança em Deus, formaram o ambiente em que aquela bênção foi dada. Não foram apenas Esaú e Jacó que erraram naquele episódio. Isaque e Rebeca também tiveram a sua parcela de culpa.

Isaque e Rebeca tinham construído uma família debaixo da bênção do Senhor. Foi Deus quem preparou Rebeca para ser a esposa de Isaque, e ninguém duvida que Isaque e Rebeca formavam um dos casais mais apaixonados da história bíblica.

No começo do relacionamento de Isaque e Rebeca, a Bíblia mostra Isaque intercedendo por Rebeca que não conseguia engravidar. Mas tão logo que os gêmeos Esaú e Jacó nasceram, as imperfeições daquele casal foram reveladas. Isaque e Rebeca podiam amar profundamente um ao outro, mas não eram pais exemplares.

A Bíblia diz que Isaque amava mais a Esaú, e Rebeca amava mais a Jacó. É verdade que antes mesmo do nascimento de Esaú e Jacó, Deus já havia escolhido o filho menor, e não o maior (Gênesis 25:23; cf. Romanos 9:13). Mas isso não era um motivo para Isaque e Rebeca falharem como pais. Deus tinha propósitos diferentes para seus filhos, mas isso não significava que Isaque e Rebeca não tinham o dever de amar a ambos.

É importante considerar esse contexto, porque quando lemos sobre o episódio em que Isaque abençoa Jacó, muitas vezes temos a tendência de culpar Jacó por seu comportamento dissimulado e mentiroso. Mas como foi dito, naquele episódio todos os membros da família da aliança erraram.

A rivalidade entre Esaú e Jacó

Em Gênesis 27, a Bíblia diz que quando Isaque já era um homem idoso e muito debilitado, ele resolveu dar ao seu filho Esaú a sua bênção antes que viesse a morrer. Então ele chamou a Esaú e pediu que ele fosse ao campo apanhar uma caça para fazer um guisado para ele. Mas Rebeca escutou o que Isaque estava pretendendo fazer, e colocou em prática um plano para que Jacó, seu filho preferido, recebe a bênção em lugar de Esaú.

Rebeca então ordenou que Jacó trouxesse para ela dois cabritos para que ela fizesse um guisado que Jacó pudesse levar até Isaque e ser abençoado por ele. Embora Isaque fosse um homem cego, Jacó teve medo que ele o reconhecesse, já que seu irmão era muito cabeludo. Mas Rebeca deu a Jacó uma das roupas de Esaú, e cobriu partes de seu corpo com as peles dos cabritos para que Isaque não o reconhecesse.

Jacó colocou em prática o plano de sua mãe e se apresentou diante de seu pai Isaque. De fato, Isaque ficou desconfiado, mas Jacó acabou o convencendo de que ele era mesmo Esaú. Então Isaque abençoou Jacó dizendo: “Assim, pois, te dê Deus do orvalho dos céus, e das gorduras da terra, e abundância de trigo e de mosto. Sirvam-te povos, e nações se encurvem a ti; sê senhor de teus irmãos, e os filhos da tua mãe se encurvem a ti; malditos sejam os que te amaldiçoarem, e benditos sejam os que te abençoarem” (Gênesis 27:28,29).

Logo em seguida a Bíblia diz que Esaú chegou de sua caça. Ele preparou o guisado conforme Isaque havia pedido, e se apresentou diante dele para ser abençoado. Foi nesse momento que Isaque percebeu que tinha sido enganado por Jacó. Esaú ficou furioso e pediu que o seu pai também o abençoasse, mas Isaque lhe disse que Jacó tinha tomado sua bênção, e nada mais podia ser feito.

Mas diante da insistência de Esaú em receber algum tipo de bênção, Isaque lhe disse: “Eis que a tua habitação será longe das gorduras da terra e sem orvalho dos céus. E pela tua espada viverás e ao teu irmão servirás. Acontecerá, porém, que, quando te libertares, então, sacudirás o seu jugo do teu pescoço” (Gênesis 27:39,40).

Depois disso, Esaú odiou a Jacó e planejou mata-lo. Quando Rebeca soube da intenção de Esaú, ela convenceu a Jacó para que ele fosse morar um tempo em Harã, na casa de Labão, até que a ira de Esaú fosse esquecida.

Esaú e Jacó: a falta do discernimento espiritual

No texto em que Isaque abençoa Jacó, facilmente identificamos Isaque como a primeira vítima da trama de Rebeca e Jacó. Porém, a verdade é que como chefe da família, Isaque também foi culpado do que aconteceu.

Primeiro, Isaque se recusou a compreender o propósito do Senhor em abençoar o filho menor, e não o maior. Ele tentou colocar sua escolha pessoal acima da escolha divina. O propósito de Deus era abençoar Jacó, mas Isaque pensou que podia se antecipar ao Senhor e abençoar aquele que era o seu filho favorito.

Depois, no momento em que Isaque abençoa a Jacó, podemos perceber que ele confiou mais em seus próprios sentidos do que na direção de Deus. O problema é que seus sentidos falharam e em sua concepção ele acabou abençoado a pessoa errada. O texto bíblico diz que Isaque já estava cego, mas naquele episódio, o maior problema de Isaque não foi sua cegueira física, mas sua cegueira espiritual.

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Esaú e Jacó: a falta de sabedoria

A Bíblia diz que a mulher sábia edifica a sua casa, mas a tola a derruba com as próprias mãos (Provérbios 14:1). No que diz respeito a manter a harmonia em seu lar, definitivamente Rebeca não foi uma mulher sábia.

Ela não foi uma mãe que amava de igual modo todos os seus filhos. Dessa forma, ela não foi um exemplo para o seu marido que se apegava mais a um filho do que outro. Na verdade, Rebeca também escolheu o seu filho favorito e deixou que a rivalidade dividisse a sua casa.

Além disso, Rebeca também não foi uma mãe pacificadora que reunia seus filhos com o objetivo de resolver os conflitos entre eles. Na verdade, ela se mostrou uma mulher que escutava silenciosamente o que era falado em sua casa, e depois usava essa informação para criar intrigas.

Quando Rebeca escutou que Isaque iria dar a bênção a Esaú, ela não procurou conscientizá-lo de que aquela era uma decisão equivocada. Antes, ela simplesmente virou as costas e tramou um plano para enganar o seu marido. Nesse ponto, Rebeca também mostrou a sua falta de fé, pois não confiou que Deus pudesse abençoar o seu escolhido sem a interferência dela.

O comportamento de Rebeca criou um problema muito grande dentro de sua família, e que lhe custou muito caro. Em decorrência do seu plano, seus dois filhos, Esaú e Jacó, se tornaram inimigos mortais. Para uma boa mãe, certamente deve ser terrível ver um filho contra o outro. Sem dúvida, como mãe Rebeca estava reprovada.

Quando a crise cresceu, Rebeca não tentou resolver a situação da melhor forma. Talvez ela pudesse ter assumido o seu erro e buscado a reconciliação de sua casa. Mas ao invés disso, ela optou por separar os dois irmãos mandando Jacó para longe enquanto Esaú estivesse irado.

Jacó tinha de ir para Harã encontrar uma esposa de entre a sua parentela para não cometer o mesmo erro de seu irmão que se casou com as filhas dos cananeus. Contudo, o plano de Rebeca era que Jacó ficasse alguns dias longe até que ela mandasse busca-lo novamente. Mas mal ela sabia que aqueles poucos dias se tornariam anos e que ela jamais voltaria a ver o seu filho favorito novamente.

Esaú e Jacó: a falta de honestidade

Jacó recebeu a bênção de Isaque, mas não se mostrou digno dela. Sim, é verdade que naquele contexto, dentro da linhagem da aliança, a bênção de Isaque era também a bênção do Senhor, e homem algum é merecedor da bênção divina por seus próprios méritos. Mas esperasse que aquele que recebe a bênção do Senhor, viva em conformidade com ela. Na vida de Jacó, essa ainda era uma realidade muito distante.

Quando Rebeca propôs o seu plano astuto a Jacó, ele não se recusou participar dele. Na verdade, ele não se mostrou preocupado em saber se aquele plano era certo, mas se mostrou preocupado em saber se o plano daria certo. Ele não sentiu medo por ser desonesto com seu pai, mas por ser descoberto e castigado por ele.

Quando esteve diante de Isaque para ser abençoado, Jacó mostrou que seu caráter estava muito distante da vontade de Deus. Ele mentiu impiedosamente enquanto desonrava o seu pai. Inclusive, ele chegou a envolver o próprio Deus em suas mentiras. Quando Isaque desconfiou da rapidez com que ele encontrou a suposta caça usada no guisado, Jacó afirmou que Deus tinha feito com que ele tivesse encontrado aquela caça rapidamente. Ele foi capaz de usar o nome de Deus para esconder o seu pecado.

O nome Jacó pode significar “esteja no calcanhar”, e de forma positiva pode transmitir o sentido de “seja Deus a sua retaguarda”. Mas esse mesmo nome também pode ser entendido de forma negativa e assumir um sentido hostil, indicando uma pessoa que persegue e suplanta outra pessoa. Foi nesse último sentido que Esaú interpretou o nome Jacó como um nome apropriado para um enganador (Gênesis 27:36).

Mas as atitudes de Jacó não passariam despercebidas. Aquele que usou de artimanhas e enganação dentro da casa de seu pai, amargaria a experiência de ser duramente enganado na casa de seu sogro, até que Deus moldasse o seu caráter.

Esaú e Jacó: a falta de zelo pelas coisas de Deus

Se no episódio em que Isaque abençoou Jacó na Bíblia Jacó foi cruel e desonesto, Esaú também foi fraco e profano. Na verdade, antes mesmo de perder a bênção, Esaú se mostrou ser alguém que não tinha o menor zelo com as coisas de Deus.

Além de se casar com mulheres hititas desrespeitando o propósito de não trazer mistura para dentro da família da aliança, a Bíblia diz que num certo dia, Esaú aceitou negociar o seu direito de primogênito por um prato de ensopado (Gênesis 25:29-34). Naquela época o filho primogênito herdava a liderança civil e religiosa da casa, e era o principal herdeiro da herança da família. Mas na família de Abraão isso era especialmente importante, pois a bênção do Senhor era a parte fundamental da herança daquela família.

Então ao não valorizar o seu direito de primogênito, Esaú basicamente também não valorizou a promessa de Deus. Inclusive, nesse episódio o texto bíblico não termina dizendo que Jacó enganou a seu irmão Esaú, mas termina dizendo que Esaú desprezou o seu direito de primogenitura (Gênesis 25:34).

Portanto, quando Esaú deixou de receber a bênção da aliança através de Isaque, na verdade ele já tinha se revelado uma pessoa incrédula que não possuía qualquer consideração para com as promessas do Senhor. A prova disso é que ele enxergou o erro de seu irmão e o odiou por isso, mas jamais reconheceu o próprio erro para que pudesse se arrepender verdadeiramente.

O falso arrependimento demonstrado por Esaú não passou de remorso. Ele não lamentou pela forma ímpia como tratou a aliança de Deus, mas lamentou por ter perdido os benefícios dessa aliança. Por tudo isso o escritor de Hebreus identifica Esaú como um homem profano (Hebreus 12:16,17). A verdade é que Esaú queria a bênção de Deus, mas não queria ser o tipo de homem que Deus poderia abençoar (Wiersbe W., 1989).

Isaque abençoa Jacó: o propósito de Deus foi cumprido

Mas a boa notícia é que apesar de toda essa sequência de erros, o propósito de Deus não foi frustrado. O texto bíblico em que Isaque abençoa Jacó é uma evidência clara de que Deus cumpre o seu propósito soberano apesar das falhas e fraquezas humanas. Muitas vezes Deus torna o mal em bem para que o seu conselho prevaleça.

Isaque, Rebeca, Jacó e Esaú, todos erraram e agiram de forma reprovável. Mas foi através de Isaque, um herói da fé a quem faltou visão espiritual no final de sua vida; foi através de Rebeca, uma mulher que falhou em edificar a própria casa; e foi através de Jacó, um homem a quem faltou honestidade, que Deus estabeleceu uma nação, também imperfeita, mas que por meio dela Aquele que é absolutamente perfeito veio ao mundo. Em Jesus Cristo, o grande descendente de Abraão da linhagem de Isaque e Jacó, se cumprem plenamente as promessas da aliança.

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