Parábola do Fazendeiro e o Servo

A Parábola do Fazendeiro e o Servo está localizada no Evangelho de Lucas (17:7-10). Esta parábola também é conhecida como “O Servo e o Seu Dever“. Vejamos abaixo o texto dessa parábola de Jesus:

Qual de vocês que, tendo um servo que esteja arando ou cuidando das ovelhas, lhe dirá, quando ele chegar do campo: Venha agora e sente-se para comer?
Pelo contrário, não dirá: Prepare o meu jantar, apronte-se e sirva-me enquanto como e bebo; depois disso você pode comer e beber?
Será que ele agradecerá ao servo por ter feito o que lhe foi ordenado?
Assim também vocês, quando tiverem feito tudo o que lhes for ordenado, devem dizer: Somos servos inúteis; apenas cumprimos o nosso dever.
(Lucas 17:7-10)

Contexto da Parábola do Fazendeiro e o Servo

É fundamental para o entendimento dessa parábola, perceber que ela é resultante de uma advertência feita por Jesus nos versículos anteriores (vers. 1-6). Na verdade, o capítulo 17 do Evangelho de Lucas a qual essa parábola se encontra, pode ser dividido em três partes. Na primeira parte temos uma advertência por parte de Jesus e o relato da parábola que estamos estudando (vers. 1-10). Na segunda parte temos a descrição da cura de dez leprosos, dos quais apenas um voltou para agradecer (vers. 11-19). Na terceira e última parte, temos um conteúdo predominantemente profético (vers. 20-37).

Se a Parábola do Fazendeiro e o Servo é resultado da advertência dos versículos anteriores, também é importante compreendermos o porquê Jesus fez essa advertência. Embora muitos estudiosos discordem que o capítulo 17 possui alguma relação temática com os capítulos anteriores (15 e 16), uma leitura atenta mostrará que a construção da narrativa feita por Lucas, sinaliza uma forte relação entre estes capítulos. Aliás, não podemos nos esquecer de que o próprio Lucas afirmou que, após um cuidadoso estudo, ele resolveu escrever um “relato ordenado” (Lc 1:3).

No capítulo 15, sabemos que os fariseus tratavam com grande desprezo os publicanos e os pecadores que se reuniam em torno de Jesus. No capítulo posterior (16), percebemos esse mesmo tipo de tratamento por parte do rico ao pobre Lázaro na parábola contada por Jesus. Ambos os capítulos nos mostram que esse tipo de tratamento só causa dano às pessoas que são menosprezadas e negligenciadas. Agora, no capítulo 17, naturalmente Jesus faz uma advertência aos seus discípulos para que não cometam semelhante pecado, ou seja, que não sirvam de tropeço para os desprezados que se aproximam do Senhor em busca de alento (vers. 1,2). Jesus alerta para o perigo de incitar alguém a pecar, e para a importância fundamental do perdão (vers. 3,4).

Diante de tal advertência, os discípulos então reconhecem que necessitam da ajuda divina, e pedem para que o Senhor aumentasse a deles (vers. 5). A resposta de Jesus lhes deixa claro que nenhuma tarefa designada por Ele seria impossível de ser realizada, desde que mantivessem firme a confiança em Deus (vers. 6). Essa resposta foi um consolo, pois agora eles sabiam que poderiam realizar grandes obras pela fé e cumprir as ordenanças do Mestre. Porém, antes que o assunto fosse concluído, Jesus conta a Parábola do Fazendeiro e do Servo, para demonstrar a atitude correta, e a verdadeira intenção de coração que seus seguidores devem ter ao realizar as tarefas para as quais foram designados.

Explicação da Parábola do Fazendeiro e o Servo

Nessa parábola, Jesus fala de um fazendeiro que possuía uma pequena fazenda. Isso fica claro que pelo fato de ele possuir somente um servo. É verdade que existe um debate entre os intérpretes se nessa passagem a palavra grega doulos deva ser traduzida como “escravo” ou “servo”, sendo o último no sentido de um trabalhador livre. Entretanto, essa discussão não é importante para o sentido principal do ensino de Jesus nessa parábola. De qualquer forma, a Parábola do Fazendeiro e o Servo mostra o relacionamento frio e impessoal tão comum no primeiro século entre patrão e empregado, ou, para quem preferir, dono e escravo.

Após o servo ter trabalhado no campo cuidando do gado e arando a terra, o fazendeiro ordena ao servo que lhe sirva, e, somente depois do fazendeiro ter se alimentado, o servo poderia se alimentar. Isso foi uma ordem, e o servo sabia que deveria cumprir simplesmente por ser esse o seu papel. Por ter realizado tais tarefas, o servo não deveria esperar nenhum tipo de elogio, pois fez nada mais do que o esperado dele.

O principal ensino dessa parábola esta na frase de Jesus: “Quando tiverem feito tudo o que lhes for ordenado, devem dizer: Somos servos inúteis; apenas cumprimos o nosso dever” (vers. 10). Jesus, nessa parábola, está ensinando aos seus seguidores o que realmente significa ser servo. Nos versículos anteriores a Parábola do Fazendeiro e o Servo, vimos que as advertências foram feitas, as tarefas delegadas, as ordens dadas e as condições garantidas (através da fé). Não estamos fazendo um “favor” ao executar o que foi ordenado pelo Senhor, ao contrário, estamos fazendo apenas nossa obrigação como servos.

Se entendermos que nessa parábola de Jesus a ordem do fazendeiro possa ter causado insatisfação ao servo que, após cuidar da terra, ainda precisou servir seu senhor antes que ele próprio pudesse se alimentar, devemos também entender que no reino de Deus as coisas são diferentes, pois seus verdadeiros servos, aqueles que de fato sabem o verdadeiro significado de servir, não realizarão suas tarefas como um tipo de obrigação, antes, farão de bom grado, com alegria no coração e grande gratidão por estarem servindo o seu Senhor.

Se avançarmos nos versículos seguintes a Parábola do Fazendeiro e o Servo, encontramos a história dos dez leprosos que foram curados por Jesus. Jesus ordenou aos dez que fossem se mostrar aos sacerdotes. Enquanto iam, eles foram purificados (vers. 13,14). Obviamente os dez cumpriram a ordem, pois a restauração da comunhão social e religiosa daqueles homens dependia disso. Porém, apenas um dos dez leprosos, em alta voz louvando a Deus, voltou correndo para Jesus para agradecer-lhe. Perceba que esse leproso fez mais do que lhe foi ordenado fazer. Ele é diferente do servo que apenas cumpre sua obrigação, pois a gratidão a Deus foi o que realmente fundamentou sua atitude.

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Lições da Parábola do Fazendeiro e o Servo

  • Nossa verdadeira intenção: a intenção do nosso coração é fundamental no modo em que nos comprometemos com as tarefas que nos foram delegadas como cidadãos do reino de Deus. O ponto principal não está no “fazer”, mas no “como fazer”. A viúva e os ricos ofertaram, mas qual foi a oferta mais valiosa? O fariseu e o publicano oraram, mas qual oração foi sincera? Caim e Abel ofereceram sacrifícios, mas qual agradou a Deus? Percebe a diferença que faz a intenção do nosso coração. Qual tem sido a intenção do teu coração ao servir o Senhor?
  • Entendendo nossa posição: por mais de uma vez os discípulos de Jesus perguntaram qual deles seria o maior no reino do céus (Mt 18:1; Mc 9:34; 10:37; Lc 9:46; 22:24). Esse mesmo comportamento tem se repetido muitas vezes entre muitos cristãos. A busca pelo lugar de destaque parece não ter limites. Até mesmo dentro das igrejas, durante nossos cultos, podemos presenciar esse tipo de comportamento. Eu mesmo já presenciei a disputa acirrada de alguns obreiros para decidir quem iria se sentar nas primeiras cadeiras de um púlpito, como se dali, Deus os pudesse ver melhor. Quanta ignorância. De fato, estar entre os primeiros diante dos homens gera alguns benefícios, e certamente pode resultar em status e reconhecimento. Entretanto, diante de Deus, a coisa é exatamente o contrário. Se somos verdadeiramente seguidores de Cristo, então necessariamente somos servos, pois Ele se preocupou em nos ensinar o verdadeiro significado de servir. Que possamos aprender a cada dia com nosso Mestre, ouvindo suas doces e duras palavras, e seguindo diligentemente seu exemplo: “Se alguém quiser ser o primeiro, será o último, e servo de todos” (Mc 9:35). “Mas não sereis vós assim; antes o maior entre vós seja como o menor; e quem governa como quem serve. Pois qual é maior: quem está à mesa, ou quem serve? Porventura não é quem está à mesa? Eu, porém, entre vós sou como aquele que serve” (Lc 22:26,27; cf. Lc 12:35-38; Jo 13:1-15).
  • Não buscar recompensas: outra lição que Jesus constantemente ensinou durante seu ministério é que não devemos trabalhar no reino de Deus buscando recompensas. Nossa relação com Deus nunca foi e nunca será a de empregador e empregado. Aos nossos patrões, podemos reclamar nossos direitos, mas ninguém poderá, jamais, reivindicar de Deus os serviços prestados. Deus não é devedor a homem algum, e não devemos esperar recompensas por tarefas cumpridas. Tal como na parábola, somos servos, e, como servos, não devemos esperar elogios por termos feito apenas o que devíamos fazer. Se fizermos tudo o que nos foi proposto, ainda somos servos inúteis. Na Parábola do Fazendeiro e o Servo, o adjetivo “inútil” não está aplicado no sentindo de “imprestável”, mas no sentido de falta de merecimento, ou seja, ressaltando a condição de que, se somos servos, não merecemos elogios por termos feito nossa obrigação. Nosso Senhor é bondoso, justo e rico em misericórdia. Sabemos que Ele recompensa seus servos, mas essa recompensa não é por merecimento, mérito pessoal de cada um ou alguma dívida para conosco, mas é unicamente por sua maravilhosa graça.

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