O Sacerdócio Celestial de Cristo e o Sacerdócio Real dos Crentes

O sacerdócio celestial de Cristo serve de base para uma das doutrinas mais importantes e fundamentais da Reforma: o sacerdócio real universal dos crentes. Jesus Cristo é o grande, perfeito e eterno Sumo Sacerdote; e por sua obra redentora os redimidos são feitos reis e sacerdotes no Reino de Deus.

Ao longo da História da Igreja o princípio do sacerdócio real universal dos crentes acabou sendo distorcido. Na Idade Média, antes da Reforma Protestante, havia uma visão que separava os cristãos entre clérigos e leigos. Os clérigos desfrutavam de muitos privilégios. Dentro desse conceito, eles formavam uma classe superior aos leigos.

Consequentemente, essa distorção, que na realidade era uma negação do ensino bíblico acerca do sacerdócio real de todos os crentes, acabou atingindo, inclusive, a doutrina acerca do sacerdócio celestial de Cristo.

Enquanto a doutrina bíblica do sacerdócio celestial de Cristo O coloca como único e suficiente Mediador entre Deus e o homem, os erros dos teólogos medievais levaram à ideia de que os leigos dependem totalmente do clero para receber as bênçãos da graça de Deus.

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O sacerdócio celestial de Cristo

Antes de falarmos sobre o sacerdócio real de todos os crentes, precisamos, em primeiro lugar, olhar para o sacerdócio celestial de Cristo. No Antigo Testamento, Deus instituiu uma classe sacerdotal de entre o povo de Israel.

Os sacerdotes hebreus receberam do Senhor a responsabilidade de executar as funções pertinentes ao culto da Antiga Aliança. Auxiliados pelos levitas, eram eles que cuidavam do Tabernáculo, dos cerimoniais da Lei e das demais atividades de adoração da congregação israelita.

Nesse sentido, os sacerdotes serviam como mediadores entre Deus e o povo; eles apresentavam ao Senhor as ofertas e sacrifícios trazidos pelos crentes daquele tempo. Havia também um líder instituído por Deus sobre a classe sacerdotal: o sumo sacerdote. Esse líder tinha permissão de entrar no Santo dos Santos uma vez por ano diante da presença de Deus representada sobre o propiciatório, e apresentar os sacrifícios expiatórios pela nação (Levítico 16:2).

Mas o Novo Testamento deixa claro que o sacerdócio hebreu apontava diretamente para o sacerdócio celestial de Cristo. Ele é o grande Sumo Sacerdote no qual se cumpre plenamente todas as funções sacerdotais levíticas. Ele é o único mediador entre Deus e os homens (1 Timóteo 2:5).

Diferentemente dos sacerdotes da antiga dispensação que tinham que oferecer sacrifícios tanto para si mesmos quanto para o povo, Cristo, como Sumo Sacerdote, se deu a si próprio como sacrifício expiatório pelo pecado do seu povo. Seu sacrifício foi eficaz e definitivo; ele não precisa ser repetido ou complementado.

O escritor de Hebreus faz uma profunda exposição acerca da superioridade do sacerdócio celestial de Cristo em relação ao sacerdócio levítico (Hebreus 2:17; 3:1; 4:14-16; 5:10; 6:20; 7:24-27; 9:12-26; 10:12).

O sacerdócio real universal dos crentes

Desde os tempos do Antigo Testamento Deus já revelava seu propósito acerca do verdadeiro sacerdócio de seu povo. Por isso o profeta Isaías profetizou: “Mas vós sereis chamados sacerdotes do SENHOR, e vos chamarão ministros de nosso Deus […]” (Isaías 61:6).

Ainda antes disso, através de Moisés o Senhor falou: “Agora, pois, se diligentemente ouvirdes a minha voz e guardardes a minha aliança, então, sereis a minha propriedade peculiar dentre todos os povos; porque toda a terra é minha; vós me sereis reino de sacerdotes e nação santa” (Êxodo 19:5,6).

Já no Novo Testamento, o apóstolo Pedro aplicou o cumprimento dessa promessa à Igreja. Ele escreve: “Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamares as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” (1 Pedro 2:9).

Também é interessante notar que o apóstolo fala da eleição e do sacerdócio real do povo de Deus como fundamentado na eleição e no sacerdócio celestial de Cristo: “Chegando-vos para ele, a pedra que vive, rejeitada, sim, pelos homens, mas para com Deus eleita e preciosa, também vós mesmos, como pedras que vivem, sois edificados casa espiritual para serdes sacerdócio santo, a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por intermédio de Jesus Cristo” (1 Pedro 2:4,5).

O livro do Apocalipse igualmente relaciona o sacerdócio de Cristo ao sacerdócio real dos crentes: “Digno és de tomar o livro e de abrir-lhe os selos, porque foste morto e com o teu sangue compraste para Deus os que procedem de toda tribo, língua, povo e nação e para o nosso Deus os constituíste reino e sacerdotes; e reinarão sobre a terra” (Apocalipse 5:9,10).

Por que os cristãos são reis e sacerdotes?

Em Israel todo sacerdote tinha que ser da linhagem de Arão, da tribo de Levi. Então um rei não podia ser sacerdote, e um sacerdote não podia ser um rei. Mas Cristo é o Sacerdote-Rei anunciado nas Escrituras (Zacarias 6:13).

Na função real Ele edificou a sua Igreja como o Templo que Deus habita através do Espírito Santo; e na função sacerdotal ele abriu de uma vez por todas o caminho para o Santuário celestial através do seu próprio sacrifício (Hebreus 10:19-23). Como Sumo Sacerdote, Ele é o único mediador que conduz o seu povo à sala do trono da graça (Hebreus 4:16).

Num certo sentido os redimidos compartilham do sacerdócio e da realeza de Cristo. Todo cristão genuíno é um sacerdote, porque pela obra redentora de Cristo ele tem acesso imediato a Deus e pode servi-lo diretamente; apresentando-lhe sacrifícios espirituais agradáveis. Todo cristão verdadeiro também é rei, pois pelos méritos de Cristo foi lhe dado assentar com Ele em seu trono (Apocalipse 3:21; cf. Apocalipse 5:10).

Contudo, mais uma vez é preciso ressaltar que o sacerdócio real dos crentes não se baseia em qualquer qualificação humana. Os crentes foram chamados ao sacerdócio real porque foi Cristo quem os constituiu reis e sacerdotes para Deus (Apocalipse 1:6).

Ao explicar sobre como o sacerdócio real dos crentes deriva do sacerdócio celestial de Cristo, Lutero diz que somos sacerdotes como Cristo é sacerdote; somos filhos como Ele é Filho; e somos reis como Ele é Rei. Calvino também explica que é uma honra singular o fato de que Deus não apenas nos consagrou como templo para Ele, no qual Ele habita e é adorado, mas também nos fez sacerdotes.

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Quais as implicações do sacerdócio real dos crentes?

Infelizmente muitos crentes ainda hoje desconhecem as implicações do profundo significado do sacerdócio real dos crentes mediante o sacerdócio celestial de Cristo; mesmo esse tema tendo sido amplamente defendido pelos reformadores.

Não é raro encontrar dentro de muitas comunidades cristãs a ideia de que certas pessoas estão numa posição espiritual mais privilegiada que outras. Daí frequentemente os pastores e presbíteros são vistos como mais íntimos de Deus; como seu suas orações fossem mais poderosas; com se sua fé fosse mais forte; como se eles recebessem uma porção maior das bênçãos da salvação; e como se eles possuíssem autoridade absoluta sobre o rebanho.

O princípio bíblico do sacerdócio real de todos os crentes reprova esse tipo de entendimento. Na Igreja de Cristo não há uma divisão entre clero e leigos. Todos são sacerdotes e, mediante a pessoa do Senhor Jesus Cristo, possuem livre acesso à presença de Deus.

Mas os direitos desfrutados pelos crentes como sacerdócio real são também deveres. Conforme vimos, o apóstolo Pedro diz que a função dos sacerdotes reais é proclamar as virtudes d’Aquele que os chamou das trevas para a sua maravilhosa luz. Isso é um direito, mas também é um dever; é um privilégio, mas também é uma responsabilidade.

Como reis e sacerdotes, todos os crentes são chamados a anunciar o Evangelho e trabalhar em prol da expansão do Reino de Deus. Os reformadores argumentavam que como sacerdotes reais, todos os cristãos têm o direito de pregar a Palavra de Deus, interceder uns pelos outros, discipular, julgar a doutrina, e até ministrar os sacramentos caso fosse necessário – num contexto missionário, por exemplo.

O que o sacerdócio real não significa?

Por último, é importante pontuar pelo menos duas distorções acerca do significado do sacerdócio real universal dos crentes. A primeira delas é aquela que diz que o sacerdócio real desencoraja a vida da Igreja como comunidade. Já a segunda é aquela que reprova o exercício do ofício ministerial de alguns cristãos.

O sacerdócio real de todos os crentes não anula a unidade da Igreja

O sacerdócio real dos crentes não significa que cada crente é sacerdote de si mesmo e não precisa estar inserido numa comunidade cristã. As Escrituras sempre falam do sacerdócio real dos crentes como algo coletivo e nunca de forma individualista.

Os reformadores entenderam e defenderam essa verdade. Lutero, por exemplo, fez questão de enfatizar o sacerdócio real no sentido comunitário, isto é, os crentes são ministros uns dos outros. Ninguém pode ser, sozinho, a Igreja. Eu não sou a Igreja, assim como você também não é; mas juntos em Cristo somos a Igreja. A Igreja é a comunidade dos santos. Ela é o Corpo de Cristo, e um corpo não é formado por um membro isolado.

O entendimento dessa verdade também nos faz rejeitar a segunda distorção sobre o sacerdócio real dos crentes; aquela que prega a abolição do ministério dentro da Igreja.

O sacerdócio real de todos os crentes não contradiz o ofício do ministério

Alguns usam o princípio do sacerdócio real de todos os crentes para defenderem a extinção de qualquer ofício distintivo na Igreja. Mas é claro que isso está errado!

O princípio do sacerdócio real universal dos crentes não contradiz a verdade bíblica de que algumas pessoas são chamadas e capacitadas pelo Espírito Santo para o ministério da Igreja; no sentido de exercer um papel de liderança, serviço e ordem na comunidade cristã.

O mesmo apóstolo que escreveu que todos os crentes são reis e sacerdotes, também defendeu a importância e a seriedade do ministério dos presbíteros/pastores como cuidadores do rebanho de Deus. Esses líderes, porém, não são donos do rebanho e nem estão numa posição superior aos demais quanto aos privilégios das bênçãos da graça de Deus. Eles são simplesmente servos do Sumo Pastor a quem terão de prestar contas (1 Pedro 5:1-4; cf. Tiago 3:1).

Todos os crentes essencialmente participam do sacerdócio real mediante o sacerdócio celestial de Cristo. Mas uns são chamados a servir à congregação através do ministério da Palavra, por exemplo. Porém, quando esses obreiros são ordenados na congregação, isso não quer dizer que eles deixam de ser leigos e passam a ser clérigos. Na Igreja de Cristo todos possuem a mesma dignidade. Todos foram constituídos por Cristo como reis e sacerdotes.

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