O Que Foi o Voto de Jefté? Ele Matou a Própria Filha?

O voto de Jefté é o voto mais complicado de se interpretar na Bíblia. O voto foi feito por Jefté, um líder de Israel no tempo dos juízes. Naquele período a nação de Israel estava sendo subjugada pelos amonitas, e Jefté foi o homem escolhido para libertar o povo daquela opressão.

Então Jefté fez um voto ao Senhor prometendo que se Israel fosse vitorioso naquela batalha e ele voltasse em paz para sua casa, ele ofereceria em holocausto ao Senhor o primeiro que saísse da porta de sua casa (Juízes 11:30). O problema no voto de Jefté é que quem primeiro saiu da porta de sua casa quando ele retornou em paz após vencer os amonitas foi uma pessoa; mais especificamente sua única filha (Juízes 11:34).

A filha Jefté lhe saiu ao encontro comemorando a vitória que o Senhor tinha dado a Israel. Mas quando ele viu que era sua filha, imediatamente ele ficou completamente abatido. Ele rasgou suas vestes em sinal de lamentação, mas admitiu que como tinha dado sua palavra ao Senhor, não poderia voltar atrás (Juízes 11:35).

A filha de Jefté reagiu àquela situação com muita compreensão. Ela disse que Jefté deveria cumprir seu voto, ou seja, fazer dela o que ele havia prometido ao Senhor. Antes, porém, a única coisa que ela pediu é que Jefté lhe permitisse chorar sua virgindade por dois meses antes de o voto ser cumprido (Juízes 11:37).

E assim foi feito. A filha de Jefté e suas amigas foram para as colinas e choraram a sua virgindade. Quando os dois meses acabaram, o voto de Jefté foi cumprido. O texto bíblico diz: “E sucedeu que, ao fim de dois meses, tornou ela para seu pai, o qual cumpriu nela o seu voto que tinha feito; e ela não conheceu varão. E daqui veio o costume em Israel, que as filhas de Israel iam de ano em ano a lamentar a filha de Jefté, o gileadita, por quatro dias no ano” (Juízes 11:39-40).

Existem basicamente duas interpretações sobre o voto de Jefté. Ambas as interpretações possuem certas dificuldades.

No voto de Jefté sua filha foi morta

A primeira interpretação defende que a o voto de Jefté significou a morte de sua filha. Ele prometeu que ofereceria um holocausto após a vitória. O significado básico da palavra “holocausto” na Bíblia é “oferta queimada”. Em outras palavras, Jefté prometeu apresentar uma oferta queimada sobre o altar ao Senhor. Como sua filha foi a primeira a lhe sair ao encontro, ele teve de matar a própria filha.

Esta é a interpretação mais tradicional entre os cristãos e é amplamente aceita pelos estudiosos. Mas aqui existem algumas variações quanto ao modo com que Jefté fez o seu voto.

Alguns acreditam que o voto de Jefté foi um voto precipitado. Supostamente Jefté estava afoito e desesperado, e no calor do momento acabou prometendo o que não deveria prometer.

Outros acreditam que o voto de Jefté foi proposital. Supostamente ele estava totalmente consciente que seu voto poderia implicar num sacrifício humano. Nesse ponto os comentaristas defendem que seria estranho que Jefté tivesse em sua casa animais válidos para o sacrifício, e ainda considerasse que um desses animais haveria de sair ao seu encontro da porta de sua casa.

Normalmente essa sugestão é apoiada pelo fato de que por conta de seus problemas familiares, é possível que Jefté não tenha tido uma boa educação sob a Lei de Deus. Então em parte de sua vida, longe de Gileade, ele sofreu influência do paganismo das nações vizinhas que ofereciam sacrifícios humanos aos seus deuses. Nessa lógica, de forma insensata Jefté considerou que a vitória contra os amonitas era tão importante que justificaria um sacrifício humano.

Mas todos que defendem esta posição concordam que Deus não entregou a vitória a Jefté em resposta ao seu voto, pois Deus abomina sacrifício humano (Deuteronômio 32:17). Embora esta seja a interpretação natural no contexto de Juízes 11, ela tem que lidar com o fato de Jefté ser bem recomendado na sequência do texto bíblico. O profeta Samuel falou dos dias de liderança de Jefté e não mencionou que Jefté sacrificou a própria filha. No Novo Testamento, Jefté também aparece entre os heróis da fé.

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No voto de Jefté sua filha foi dedicada ao serviço do Senhor

A segunda interpretação defende que o voto de Jefté significou simplesmente a dedicação total de sua filha ao serviço do Senhor. Embora esta seja a posição menos comum entre os cristãos, ela também é defendida por teólogos muito capacitados.

Esta interpretação argumenta que na discussão com os amonitas, Jefté demonstrou ter bom conhecimento da Escritura. Então seria estranho que ele não soubesse que Deus não aceitava sacrifício humano.

Também, pouco antes de o texto bíblico registrar o voto de Jefté, o mesmo texto informa que o “Espírito do Senhor veio sobre Jefté” (Juízes 11:29). Isso significava uma capacitação especial para o seu serviço. Quem defende esta interpretação diz que é difícil imaginar alguém sob a capacitação do Espírito de Deus rapidamente fazendo um voto tão tolo. Conduto, os críticos desta interpretação relembram que algo semelhante também aconteceu com o rei Davi em seu pecado com Bate-Seba.

Esta interpretação também rebate a sugestão de que Jefté agiu com precipitação. No texto de Juízes 11 Jefté não parece ser um homem precipitado. Inclusive, ele não aceitou de prontidão voltar a Gileade, e antes da batalha Jefté ainda tentou negociar com o rei de Amom através de mensageiros. Então por que ele faria um voto tão sério de forma tão precipitada?

Além disso, quem defende esta interpretação alega que embora o significado mais natural de “holocausto” seja mesmo “oferta queimada”, no hebraico também é possível que a mesma palavra possa assumir o sentido de “consagração total”. Então nesse caso Jefté teria prometido consagrar ao serviço do Senhor a primeira pessoa de sua casa que lhe saísse ao encontro.

Como sua filha foi a primeira a lhe sair ao encontro, isso significava que ela deveria viver o resto de sua vida no celibato; e como ela era a única filha de Jefté, isso também implicava no fato de que Jefté dificilmente teria descendência ­– o que talvez explique o seu grande abatimento ao ver que o voto teria que ser cumprido em sua filha.

Nesse ponto os defensores desta interpretação observam a grande ênfase na questão da virgindade no lamento daquela moça com suas amigas. Basicamente ela se lamentou porque nunca seria esposa e mãe.

Esta interpretação se apoia principalmente no fato de Jefté ser lembrado pelo profeta Samuel sem nenhuma censura (1 Samuel 12:11); e ser incluído entre os heróis da fé na Carta aos Hebreus (Hebreus 11).

Sobre isso, os defensores da primeira interpretação argumentam que todos os nomes que foram incluídos na galeria dos heróis da fé também cometeram pecados graves contra o Senhor. Isso, inclusive, enfatiza a justificação pela fé somente, através da graça de Deus, e não por obras.

Por fim, esta interpretação também possui suas dificuldades. A ideia de que a filha de Jefté foi entregue ao serviço do Senhor não encontra nenhum precedente no Antigo Testamento. Isso quer dizer que na Bíblia não há nenhum exemplo de uma mulher que adotou o celibato e ficou trabalhando no Tabernáculo ou no Templo, inteiramente dedicada ao serviço sagrado em Israel.

Além disso, de fato a leitura mais natural de Juízes 11 favorece a ideia de que o voto de Jefté implicou num sacrifício humano que jamais deveria ter ocorrido. Inclusive, o texto termina falando de um costume em Israel que teve lugar depois do cumprimento do voto de Jefté, em que as mulheres celebravam a memória da filha de Jefté ­– como se de fato ela tivesse sido morta (Juízes 11:39).

Como fica claro, as duas interpretações sobre o voto de Jefté possuem seus pontos positivos e suas fraquezas. Também, as duas interpretações precisam lidar com a verdade de que pela Lei Jefté tinha a possibilidade de apresentar o pagamento de um resgate e redimir sua filha, livrando-a do voto (Levítico 27).

Sem dúvida Jefté ficou muito abatido quando percebeu que o seu voto seria cumprido em sua filha. Então por que ele não usou esse recurso? Esta é só mais uma pergunta que não sabemos responder sobre o voto de Jefté.

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