O Que Significa “Ainda Que eu Ande Pelo Vale da Sombra da Morte”?

O “vale da sombra da morte” significa uma circunstância perigosa representada de forma figurada por um vale sombrio e ameaçador. O salmista aplica essa expressão quando diz: “Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal nenhum, porque tu estás comigo; a tua vara e o teu cajado me consolam” (Salmos 23:4).

Na expressão “vale da sombra da morte” a palavra “vale” traduz um termo hebraico que indica uma grande depressão no solo, um desfiladeiro, isto é, um vale. Já o complemento dessa expressão – “sombra da morte” – traduz o hebraico tsalmaveth.

Esse termo hebraico aparece algumas vezes em outros textos do Antigo Testamento. Seu significado literal de fato é “sombra da morte” ou “sombra mortal”, mas dependendo do contexto uma tradução possível também pode ser “trevas profundas” ou “escuridão densa”.

Então em algumas passagens bíblicas onde esse termo é aplicado, a ideia de “escuridão” é a mais indicada; enquanto que em outras, “perigo” e “morte” são os sentidos pretendidos pelos escritores bíblicos.

No livro de Jó, por exemplo, esse mesmo termo aparece para designar “a terra das trevas e da sombra da morte” uma frase figurada para indicar a morte ou o lugar dos mortos (Jó 10:21,22; cf. Jó 38:17). Na profecia do profeta Jeremias, a expressão “sombra da morte” também é aplicada para descrever o deserto e seus perigos mortais (Jeremias 2:6).

Os comentaristas se dividem quanto à opinião de qual o sentido que o salmista tinha em mente quando aplicou a expressão “vale da sombra da morte” no Salmo 23. Alguns sugerem que a ideia de morte é predominante, mas outros defendem que a expressão do salmista também pode muito bem designar outras crises e dificuldades, e não apenas a última delas, isto é, a morte.

Nesse sentido Warren Wiersbe diz que o vale da sombra da morte representa qualquer experiência difícil na vida do homem que lhe causa grande temor, inclusive a morte (Comentário Bíblico Expositivo do Antigo Testamento – Poéticos, 2001).

Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte

Não podemos perder de vista o fato de que a expressão “vale da sombra da morte” no Salmo 23 está aplicada num contexto em que o salmista usa a descrição do pastor apascentando o seu rebanho como figura para falar do cuidado do Senhor para com seu povo.

O salmista abre o salmo declarando: O Senhor é o meu Pastor; nada me faltará (Salmo 23:1). Depois ele diz que o Senhor o faz repousar em pastos verdejantes, e o leva “para junto das águas de descanso” (Salmo 23:2). Na sequência o salmista ainda diz que o Senhor restaura a sua alma e o guia “pelas veredas da justiça por amor do seu nome” (Salmo 23:3).

Todas essas afirmações empregam de forma figurada os cuidados do pastor por suas ovelhas. Então ao falar sobre o “vale da sombra da morte”, o salmista ainda mantém esse mesmo propósito. Da mesma forma que as ovelhas descansam em pastos verdejantes e caminham por trilhas em terrenos planos e confortáveis, muitas vezes elas também precisam passar por caminhos difíceis, terrenos acidentados e vales ameaçadores onde há covas escuras que escondem animais selvagens.

É assim também com os crentes. O povo de Deus é guiado por Ele e sempre está devidamente seguro sob sua proteção. Mas aqueles que habitam no esconderijo do Altíssimo e descansam sob a sombra do Onipotente (Salmo 91:1-3), também são submetidos ao vale da sombra da morte.

Perceba que o salmista diz: “Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte”. Com isso ele está declarando que o crente não está imune às aflições desta vida, e coloca o vale da sombra da morte como uma possibilidade tão real quanto os pastos verdejantes. Qualquer ensino que pregue que os cristãos estão livres da dor e do sofrimento por causa de sua fé, é estranho às Escrituras. Na verdade o genuíno ensino bíblico coloca a dor e o sofrimento como instrumentos através dos quais a fé do crente é aperfeiçoada.

Não temerei mal nenhum

O medo pode ser avassalador para o homem. Muitas vezes em tempos de crise o medo mata mais do que o agente causador da crise. Assim, ao falar do vale da sombra da morte o salmista não ignora a presença do medo. Na verdade implicitamente ele admite que o vale da sombra da morte é intimidador, e que em si mesmo ele não encontra nada capaz de tranquilizá-lo diante do perigo e da adversidade.

Aqui mais uma vez a figura do rebanho nos ajuda a entender essa questão. As ovelhas são animais que não gostam de ambientes escuros e se assustam com facilidade. Juntando o fato de que elas não possuem uma visão privilegiada, as ovelhas estão entre os animais mais medrosos.

O salmista então se coloca como uma ovelha frágil e assustada, mas que, por um motivo que está além de suas próprias capacidades, não é vencida pelo medo. Por isso confiantemente ele declara: “Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte; não temerei mal nenhum”.

Com isso, o rei Davi basicamente está afirmando que o medo faz parte de sua própria natureza; e que o ambiente ameaçador e as circunstâncias perigosas são combustíveis que inflamam esse medo. Mas ele também afirma que há algo superior a tudo isso e que lhe possibilita ter a certeza de que independentemente do que acontecer, ele não temerá coisa alguma.

Porque tu estás comigo

Alguém pode perguntar: Por qual motivo não devemos ter medo mesmo diante do vale da sombra da morte? Qual é o antídoto que pode neutralizar o medo do homem?

A resposta para tais perguntas pode ser tirada da resposta de outra pergunta ainda mais prática: O que faz com que as ovelhas – que são animais tão medrosos – sejam capazes de atravessar vales escuros onde há feras selvagens que podem facilmente matá-las? Obviamente a resposta para esta pergunta é: a presença do pastor do rebanho.

A voz do pastor acalma e orienta as ovelhas; a vara do pastor lhes dá proteção; e o cajado do pastor lhes mantém na direção certa. Assim, mesmo sendo animais indefesos, as ovelhas atravessam terrenos escuros e perigosos.

Não é diferente com o crente. O salmista deixa claro o motivo pelo qual o seu medo é vencido. Ele diz que não teme atravessar o vale da sombra da morte porque o seu Pastor está junto dele. Num terreno confortável o pastor geralmente segue na frente das ovelhas para guiar o rebanho, mas num terreno hostil é comum que o pastor siga ao lado das ovelhas para escoltar o rebanho.

É interessante notar que antes dessa declaração o salmista estava falando do Pastor, mas agora, no ponto mais crítico de sua narrativa, o salmista fala com o Pastor. O salmista troca o “ele” pelo “tu” e assim pode dizer de forma intima e pessoal: “não temerei mal nenhum, porque tu estás comigo”.

O vale da sombra da morte não assusta as ovelhas do Senhor

A presença do Senhor é real e próxima de seu povo. Deus se revela como Pastor de seu povo na pessoa de seu Filho, Jesus Cristo. Ele é o Bom Pastor; é o próprio Emanuel, o Deus conosco (Mateus 1:23). Ele está tão junto de suas ovelhas que dá a vida por elas (João 10:11-15).

Por tudo isso as ovelhas do Senhor não andam temerosas. A presença protetora do Bom Pastor faz com que nenhum tipo de mal seja motivo de temor. Os redimidos sabem que ainda que andem pelo vale da sombra da morte, eles não estão sozinhos. Por mais que o ambiente seja ameaçador e a circunstância seja adversa, os crentes estão protegidos na providência divina. Definitivamente o vale da sombra da morte também é um lugar onde o Deus Todo-Poderoso reina.

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