Predestinação e Eleição: O Que Significa Predestinação na Bíblia?

A predestinação é uma doutrina bíblica que se refere ao propósito soberano de Deus com relação a suas criaturas. A predestinação faz parte do estudo acerca da providência de Deus, que afirma sua soberania sobre tudo o que acontece.

A doutrina da predestinação tem sido muito debatida entre os cristãos. Alguns já tentaram negá-la de todas as formas. Há quem até se sinta ofendido por ela! No entanto, é inegável que a Bíblia realmente fala em predestinação.

Por isso, todos os cristãos genuínos reconhecem a predestinação como legítima, embora discordem sobre como ela acontece. Esse debate sobre a predestinação é representado na atualidade especialmente por dois grupos: calvinistas e arminianos.

O primeiro grupo crê numa eleição e predestinação incondicional, enquanto o segundo crê em sua forma condicional. Também é verdade que o Calvinismo não se resume apenas a essa questão. Porém, todos os que defendem uma predestinação incondicional são popularmente apelidados de “calvinistas”.

Neste texto, conheceremos o que a Bíblia diz sobre a predestinação, e como os cristãos interpretam essa doutrina. Tentaremos abordar de forma bastante simples as diferentes visões sobre esse assunto. Não será nosso objetivo aqui defender uma ou outra posição.

O significado de predestinação

A palavra predestinação traduz o termo grego proorizo, que significa “pré-determinado”, “destinado de antemão” ou “previamente decidido”. Esse termo aparece seis vezes no Novo Testamento. Em algumas referências, ele se refere à predeterminação por parte de Deus dos acontecimentos da História do mundo (Atos 4:28; 1 Coríntios 2:7).

Em outras referências, esse termo fala da predestinação acerca do destino final dos indivíduos, especialmente com relação à salvação (Romanos 8:29-30; Efésios 1:5,11). Por isso a teologia estabelece uma diferença entre predestinação e pré-ordenação, ambas dentro dos decretos de Deus.

A predestinação está relacionada ao destino eterno dos indivíduos (salvação e reprovação). Já a pré-ordenação trata acerca de todos os outros acontecimentos da História mundial.

Eleição, predestinação, reprovação e presciência

A predestinação também está diretamente ligada à eleição e a presciência. A eleição indica o ato de Deus separar alguns indivíduos de entre a raça humana caída para a salvação. A eleição destes indivíduos ocorreu antes da fundação do mundo (Efésios 1:1-13).

A eleição aparece na Bíblia em diferentes sentidos. Temos a eleição de Israel como um povo separado para um serviço especial (Deuteronômio 4:37; Oséias 13:5). Alguns indivíduos são eleitos (escolhidos) para desempenhar um ofício ou determinado serviço (Deuteronômio 18:5; 1 Samuel 10:24; Jeremias 1:5; Atos 9:16). Lemos também sobre a eleição de indivíduos para serem recebidos como filhos de Deus através da obra redentora de Cristo (Mateus 22:14; Atos 13:48; Romanos 1:5; Efésios 1:4).

Já a predestinação, quando comparada à eleição, deve ser entendida como sendo o destino dado por Deus aos eleitos. Essa destinação ocorreu também na eternidade, daí o termo “predestinação”.

Os não-eleitos recebem a reprovação por parte de Deus por causa de seus pecados. Isso significa que a reprovação é o oposto da eleição. Os que não são eleitos e predestinados à vida eterna, são naturalmente destinados à condenação. Essa reprovação é o ato da justiça divina punindo os pecadores por seus próprios pecados.

Quanto à presciência, ela indica basicamente a realidade de que Deus conhece todas as coisas antes que elas aconteçam. Saiba o que é a presciência de Deus.

Os objetos da predestinação

Num certo sentido, a predestinação abrange a todas as criaturas racionais. Isso significa que a predestinação inclui não apenas os homens, mas também os anjos. O Novo Testamento fala acerca de anjos eleitos (1 Timóteo 5:21), o que naturalmente resulta na existência de anjos não-eleitos.

No caso dos anjos, a eleição e predestinação devem ser entendidas de forma diferente que aquela dos homens. Pode-se entender que os anjos eleitos são aqueles que, pela graça soberana de Deus, perseveraram em santidade. Diferentemente de outros, eles guardaram seu primeiro estado (2 Pedro 2:4; Judas 6).

A Bíblia também ensina que o próprio Cristo, como o Mediador, também foi objeto da predestinação de Deus (Atos 2:23; 1 Pedro 1:20; 2:4). Desde a eternidade o Filho de Deus foi escolhido para redimir pecadores.

A base da eleição e predestinação

Aqui é onde começa os debates acerca da eleição e predestinação. Alguns entendem que a eleição e predestinação configuram um ato soberano de Deus com base em sua livre vontade. Assim, os critérios pelos quais Deus escolheu e predestinou aqueles que fariam parte de seu povo são desconhecidos ao homem. Tudo o que se sabe é que essa escolha e predestinação não tem sua origem e causa no próprio eleito e predestinado.

Quem pensa assim, também crê que a eleição e a predestinação tratam de indivíduos. Isso significa que Deus escolheu e predestinou pessoas em particular para a salvação em seu Filho, Jesus.

Outros entendem que a base da eleição e predestinação é a presciência divina acerca da fé. Isso significa que Deus sabia antecipadamente quem algumas pessoas iriam crer em Cristo por sua livre vontade, aceitando-o como Salvador. Deus então elegeu e predestinou essas pessoas com base no que Ele viu.

A primeira interpretação é comum ao Calvinismo, e a segunda é comum ao Arminianismo. Para que isso fique mais claro, a seguir veremos os pontos básicos acerca da eleição e predestinação nessas duas linhas de interpretação.

Eleição e predestinação no Arminianismo

Ao contrário do que alguns pensam, o Arminianismo também crê na eleição e predestinação. Sob essa visão, a eleição e predestinação são condicionais. O significado disso é que antes da fundação do mundo Deus elegeu e predestinou certos indivíduos para a salvação. Porém, essa escolha e predestinação foram baseadas em seu conhecimento antecipado.

O que na verdade Deus previu foi a fé dessas pessoas. Ele olhou pelo corredor do tempo quais escolhas suas criaturas fariam no exercício de seu livre-arbítrio. Assim, Ele previu aqueles que responderiam favoravelmente sua oferta de salvação, e a estes elegeu e predestinou. Saiba o que a Bíblia diz sobre o livre-arbítrio.

Dentro do Arminianismo também há uma discussão acerca dos objetos da eleição e predestinação. Alguns entendem que a predestinação se refere especialmente a indivíduos. Outros sugerem uma eleição e predestinação coletiva.

Neste ponto há muitas divergências. A posição mais comum é aquela que defende que Deus elegeu um grupo para a salvação, a Igreja. Todos aqueles que fazem parte desse grupo, reunindo as condições necessárias para isto, estão predestinados à salvação. Mas se porventura o indivíduo deixar esse grupo, ele deixará de ser predestinado à salvação.

Assim, a pessoa pode livremente optar por entrar e sair do grupo eleito. Os defensores dessa visão normalmente utilizam a analogia de um navio. Esse navio está predestinado a chegar a um destino. Quem estiver dentro do navio naturalmente também estará predestinado a chegar a tal destino. Porém, isso não impede de alguém subir ou descer do navio no meio do caminho. Vale dizer que essa posição não é a mais tradicional dentro do Arminianismo clássico. Muitos arminianos apontam que essa teoria não possui qualquer fundamentação bíblica.

A predestinação é pela fé prevista

A visão arminiana clássica enfatiza que a Bíblia ensina que a eleição e predestinação ocorrem pela presciência de Deus. Os textos mais utilizados são Romanos 8:29 e 1 Pedro 1:2. Assim, essa interpretação defende que Deus viu quem iria crer e aceitar a Cristo atendendo o chamado do Evangelho.

A salvação é unicamente pela graça de Deus, e não considera os méritos humanos. Porém, a disposição em crer e a própria fé depende da vontade humana. Aqui há uma cooperação (sinergismo) entre a graça de Deus e o arbítrio humano.

A Bíblia em várias passagens convida o homem a tomar uma decisão (Apocalipse 3:20). Por este motivo a predestinação é pela presciência. Deus viu e considerou a decisão de cada um. Além disso, a Bíblia mostra que cada um precisa perseverar até o fim para ser salvo. Isto mostra a condicionalidade da fé para a eleição e predestinação (Mateus 10:22; 24:13).

Principais argumentações da predestinação no Arminianismo

Nem todos os Arminianos assumem tais argumentações. Mas no geral, as argumentações abaixo são as mais populares dos que defendem a predestinação na visão arminiana e contestam a predestinação na visão calvinista.

1. Se Deus predestinou alguns e reprovou outros simplesmente com base em sua vontade, então Ele foi arbitrário. Nesse caso, Ele agiu com injustiça quando resolveu conceder apenas a algumas pessoas o dom da salvação. Um Deus que é amor, e ama o mundo, não poderia deixar suas criaturas à perdição eterna sem considerar sua decisão (João 3:16).

2. A eleição e predestinação sem ser pela presciência resultaria em seres autômatos. Os homens seriam como robôs pré-programados, e não amariam a Deus de forma espontânea e livre.

3. Se a eleição e predestinação fossem de forma incondicional, um indivíduo não-eleito, mesmo querendo ser salvo e crendo em Jesus, seria condenado por não ser eleito.

4. Deus quer que todos os homens venham a arrepender-se. Ele deseja que todos sejam salvos (1 Timóteo 2:4; 2 Pedro 3:9). Além disso, Deus não faz a acepção de pessoas (Atos 10:34; 2:11). A eleição e predestinação incondicional contradiz tais verdades bíblicas.

5. Se Deus predestinou o homem de forma incondicional, então não há necessidade de evangelizar. O evangelismo é inútil porque todos os eleitos e predestinados necessariamente serão salvos.

6. A predestinação incondicional pode levar alguém a viver uma vida de pecado, pois ele já está eleito e predestinado.

7. A predestinação incondicional causa dúvida nos crentes. Eles não conseguem ter a certeza da salvação, pois não sabem se são ou não predestinados à salvação.

Eleição e predestinação no Calvinismo

Se a eleição e predestinação no Arminianismo é condicional, no Calvinismo é incondicional. Deus, na eternidade, escolheu e predestinou alguns indivíduos para salvação através de seu Filho.

Essa escolha e predestinação tiveram como base o seu santo, justo e soberano conselho. Foi pelo beneplácito de sua vontade que Ele dispensou sua graça salvadora ao seu povo (Efésios 1). O critério, causa e razão das escolhas de Deus são misteriosos aos homens. Tudo o que sabemos é que a eleição e predestinação não implicam numa injustiça de sua parte.

Devemos lembrar que quando Deus elegeu e predestinou àqueles que seriam seus, sua bondade, justiça, integridade, imparcialidade, santidade e sabedoria estavam envolvidas. Certamente o Deus que é infinitamente santo, justo e sábio, soube escolher melhor do que nós.

Na verdade é preciso admitir a nossa limitação diante dos inescrutáveis decretos de Deus. Ele predeterminou todas as coisas de um modo que Ele não é o autor do mal moral, e nem de um modo que viola a vontade de suas criaturas e a responsabilidade delas.

Dentro do Calvinismo há uma discussão com relação à reprovação dos não-eleitos. Alguns estudiosos sugerem uma dupla predestinação, isto é, predestinação à salvação e à perdição. Outros simplesmente falam sobre a predestinação dos eleitos e adotam a indiferença quanto aos reprovados.

Assim, Ele predestinou os eleitos à salvação, e simplesmente deixou os demais indivíduos às suas próprias concupiscências. Não haveria necessidade de predestiná-los à perdição, pois os reprovados são condenados com base em sua própria culpa.

A predestinação não é pela fé prevista

O Calvinismo rejeita a eleição e predestinação com base na fé prevista. O argumento é que em nenhum lugar na Bíblia a presciência de Deus é aplicada à fé, escolhas ou ações das pessoas. Nos textos bíblicos Deus sempre prevê pessoas. A Bíblia diz que Deus conheceu pessoas de antemão, e não suas ações. Claro que Deus conhece suas ações, obras e decisões, mas o foco está nas pessoas. Além disso, a presciência de Deus não é simplesmente uma mera previsão, apenas uma cognição prévia.

Além disso, quando a palavra “presciência” é aplicada a Deus no Novo Testamento, ela também implica na ideia de relacionamento especial. Na Bíblia quando Deus conhece alguém isso indica um ato de favor, isto é, “considerar com afeição” (Êxodo 33:17; Amós 3:2; João 10:14). A presciência trata desse conhecimento que indica relacionamento.

Assim, o texto de 1 Pedro 1:2 que diz “eleitos segundo a presciência de Deus Pai” deve ser interpretado como “escolhidos antecipadamente segundo o propósito de Deus”. Algumas traduções biblicas revisadas para o português já adotam essa tradução, pois está em harmonia com o contexto. A questão é que no mesmo capítulo o apóstolo usa o mesmo termo grego, prognosko, para se referir à escolha de Cristo como redentor (1 Pedro 1:20).

Isso significa que se a presciência no versículo 2 for meramente uma previsão, o mesmo acontecerá no versículo 20. O resultado é que Deus apenas previu a pessoa de seu Filho, ou seja, a obra de Cristo não teria sido um plano eterno, mas uma simples previsão.

Romanos 8:28 e 29 também ajuda a entender que a presciência da fé não é a base da eleição. Paulo fala que aqueles que Deus conheceu de antemão, a estes Ele predestinou. Se o texto for isolado neste ponto, realmente a presciência parece ser a base da predestinação.

Porém no versículo anterior, o apóstolo esclarece que aqueles que Deus conheceu de antemão são aqueles que o amam. Alguém pode perguntar: Mas quem são aqueles que amam a Deus? O mesmo apóstolo responde: “aqueles que são chamados segundo o seu decreto”. Portanto, a base de tudo é o decreto de Deus (cf. Salmo 2:7).

Além disso, se a eleição e predestinação fossem com base na fé prevista, ela não seria uma predestinação, mas seria uma simples constatação. Dessa forma, Deus apenas constatou aqueles que, por livre vontade, iriam escolher a salvação. Em ultima instância, isso não seria uma predestinação divina, mas uma auto-predestinação humana. Na verdade a escolha do homem é que contaria, e não a escolha de Deus. A vontade do homem prevaleceria sobre a vontade de Deus.

Deus quer salvar o homem e providenciou um plano para isto, mas o homem é quem decidirá se quer ser salvo e se o plano de Deus não será frustrado. Se isso fosse verdade, o resultado é que Deus não providenciou a salvação, mas apenas uma possibilidade de salvação. Sobre isso, o apóstolo Paulo escreve que “não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus, que se compadece” (Romanos 9:16).

Dentro do Calvisnismo também nem há a discussão sobre a eleição e predestinação coletiva. Os calvisnistas entendem que dizer que Deus predestina um grupo, mas não predestina os integrantes desse grupo, é um argumento ilógico, visto que um grupo é formado por indivíduos. Além disso, não há base bíblica para defender essa tese. A Bíblia fala da eleição da Igreja enquanto a comunidade dos fiéis, bem como a eleição de indivíduos que formam essa comunidade. Neste ponto, muitos arminianos também concordam.

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Argumentações acerca da predestinação no Calvinismo

Os argumentos acerca da predestinação na visão calvinista geralmente se apresentam como contra-argumentos das objeções arminianas. Seguiremos esse padrão aqui.

1. A Bíblia diz que todos os homens pecaram contra Deus (Romanos 3:9-23). Isso significa que não existem inocentes de entre a raça humana (Salmo 143:2). Deus jamais esteve em divida para com o homem, portanto se soberanamente Ele decidiu salvar alguns isto não é nenhuma injustiça.

Se Deus tivesse resolvido que toda a humanidade devesse ser condenada ao inferno, Ele ainda assim seria totalmente justo. Ele elegeu e predestinou indivíduos de entre uma raça caída e não de entre uma raça justa e íntegra. Em nenhum momento o caráter amoroso de Deus é colocado à prova por causa de sua soberania na eleição e predestinação incondicional.

Os pecadores que são condenados à destruição eterna, o são por causa de seu próprio pecado. Deus é justo e não condenará nenhum inocente ao inferno. Paulo anteviu que esse tipo de argumentação iria surgir, e por isso fez questão de afirmar a soberania e justiça de Deus diante de suas criaturas insatisfeitas (Romanos 9:14). O mesmo apóstolo fala que a eleição é da graça (Romanos 11:5). Isso significa que nenhum indivíduo teria o direito de ser eleito. Graça é favor imerecido.

2. A Eleição e predestinação pela vontade soberana e incondicional de Deus não anula a liberdade e a responsabilidade do homem. Deus também executa seus planos soberanos através da vontade de suas criaturas (Filipenses 2:12,13).

A predestinação não faz de ninguém um robô pré-programado. O homem é um agente livre, capaz de escolher e decidir. Essas decisões e escolhas são importantes e possuem grandes implicações. O que a Bíblia diz é que por causa da corrupção de sua própria natureza, o homem caído é incapaz de escolher e se decidir pelas coisas de Deus.

É blasfemo inferir que o homem peca porque Deus o obriga a pecar (Tiago 1:13). O homem peca e se deleita em seu pecado. A perversidade satisfaz a natureza caída e pecaminosa do homem. Desde a Queda, os homens amaram mais as trevas do que a luz (João 3:19).

Porém, quando o Espírito Santo trabalha regerando o pecador, é o próprio pecador que responde voluntariamente, de acordo com sua nova natureza, com fé e arrependimento. A fé é um dom de Deus, e o Espírito Santo é quem convence o homem de seu pecado. No entanto, não é Deus quem crê ou se arrepende pelo homem. É o homem quem crê, e é o homem quem se arrepende. Nesse sentido, Deus opera através da vontade do homem, e não contra ela. Nenhum cristão verdadeiro, seja ele calvinista ou arminiano, ousará dizer que o amor que sentem pelo Senhor é forçado e lhes priva de sua liberdade.

3. A Bíblia não fala de ninguém que quer ser salvo, mas não consegue porque não foi predestinado. Jesus disse que jamais lançará fora alguém que for até Ele. Porém, Ele também disse que só podem ir até Ele aqueles a quem o Pai enviar (João 6:37-44).

A Bíblia fala que todos pecaram, que não há um justo se quer diante de Deus. O estado do homem caído é tão deplorável, que ele é retratado como um cadáver (Efésios 2:1-10). Um morto não pode crer em Jesus, nem mesmo desejar ser salvo. Ele precisa ser ressuscitado primeiro. É por isso que o apóstolo Paulo escreve que ninguém pode confessar que Jesus é o Cristo se não for pelo Espírito Santo (Coríntios 12:3).

4. A eleição e predestinação incondicional não contradiz as verdades bíblicas de que Deus quer que todos os homens venham a arrepender-se. Nem mesmo ela apresenta Deus como Aquele que faz acepção de pessoas. Em primeiro lugar, na maioria dos textos em que a palavra “todos” é aplicada com relação à salvação, ela não implica na ideia de todos os homens em particular. Os próprios textos indicam que se trata de uma referência a todas as classes de pessoas.

Porém, existem textos que realmente indicam o amor de Deus por todos os homens. Ele é o Deus que não sente prazer na morte do ímpio (Jeremias 33;11). Sob esse aspecto, sim, Ele deseja que todos os homens se arrependam. Aqui então precisamos saber diferenciar a vontade preceptiva de Deus de sua vontade decretiva.

A vontade preceptiva reflete o padrão moral de Deus expressando seus preceitos. Já a vontade decretiva de Deus é expressa em seus decretos e certamente será cumprida. A questão é que bem tudo o que Deus desejou em sua vontade preceptiva, Ele decretou em sua vontade decretiva. É claro que Ele teria poder para isto, se assim o quisesse.

Em segundo lugar, não há como dizer que a eleição e predestinação incondicional é acepção de pessoas. O problema nome já diz: eleição e predestinação incondicional. Isso significa que ela não se baseia em nada que há no homem. A acepção de pessoas só se configura quando há uma aceitação, favorecimento ou rejeição com base em qualidades e características das próprias pessoas.

Se a causa da eleição e predestinação não está na pessoa que é objeto dela, mas em Deus que é quem escolhe, jamais isto seria uma acepção. Na verdade, é a eleição e predestinação condicional que configura acepção de pessoas. Se a eleição e predestinação são baseadas na fé prevista, então Deus fez acepção de pessoas, pois Ele sabia que nem todos teriam as mesmas oportunidades.

Muitas pessoas passaram por este mundo sem nunca ouvir o Evangelho. Sim, Deus revela sua vontade através das obras da criação e sua lei está impressa na consciência de todas as pessoas. Porém, é através das Escrituras que sua vontade é revelada ao homem de forma especial. Sob esse aspecto, é inegável que uma pessoa que nasceu na Inglaterra no século 18 nos dias de pregação de John Wesley, teve mais oportunidades de crer no Evangelho do que uma pessoa nascida no Império Asteca.

Se a eleição e predestinação são baseadas na fé prevista, então sim, Deus fez acepção de pessoas. Mas se crermos que Deus elegeu e predestinou aqueles que são seus de forma incondicional e soberana, então temos a certeza de que Ele garantirá que, de alguma forma, o chamado eficaz de sua graça alcance a todos eles, onde quer que estejam.

5. A eleição e predestinação não é uma ameaça à evangelização, ao contrário, é a garantia de sua eficácia. Ao saber que Deus elegeu e predestinou os que são seus, certamente a pregação do Evangelho trará resultados.

Além disso, é através da pregação do Evangelho que Deus determinou que seus eleitos fossem chamados. O Evangelho é o poder de Deus para a salvação de seu povo (Romanos 1:16; 1 Coríntios 1:18,24; 2:4; 1 Tessalonicenses 2;13; Hebreus 4;12; Tiago 1:18; 1 Pedro 1:3,23).

Por isso é preciso evangelizar, sabendo que Deus se encarregará dos resultados. Em Atos 13:48 lemos exatamente sobre isto. Após a pregação do Evangelho entre os gentios, “creram todos quantos estavam ordenados para a vida eterna”.

Independentemente de qualquer coisa, nosso dever é pregar o Evangelho a todos os homens, sem distinção, sabendo que Deus conhece aqueles que são seus (Mateus 28:18-20; Atos 1:8; 1 Coríntios 2:1-5; 2 Timóteo 2:19).

6. Ninguém que foi eleito e predestinado por Deus viverá uma vida de pecado após ser regenerado pelo Espírito Santo. Isso é incompatível com sua nova natureza. Após nascer de novo, aquele a quem Deus elegeu e predestinou vive uma vida de obediência e santificação (1 Pedro 1:2). Se alguém diz ser predestinado e anda segundo o curso deste mundo, ele jamais conheceu a Deus (1 João 3:1-10).

7. A doutrina bíblica da predestinação serve exatamente para trazer segurança da salvação aos crentes. Eles podem descansar sabendo que sua salvação não foi confiada ao enganoso coração do homem (Jeremias 17:9; Tito 1;15,16).

A salvação é um plano eterno de Deus, e somente estando nas mãos de Deus é quer podemos ter certeza dela (João 10:14,27; Romanos 8:30-39; 1 Pedro 1:1,5). Deus é quem preserva e mantém o seu povo firme até o fim (1 Coríntios 1:8).

Conclusão sobre a doutrina da predestinação

É necessário muito cuidado quando falamos sobre a doutrina da eleição e predestinação. É preciso se ter em mente que estamos falando dos decretos de Deus, e seus desígnios são insondáveis para nós.

Portanto, é importante saber se calar onde as Escrituras se calam, ou seja, não podemos ir além do que a Palavra de Deus nos leva. Não há ninguém, nem o mais capacitado estudioso do Arminianismo ou do Calvinismo, que consiga explicar totalmente os mistérios de Deus na eleição e predestinação.

Por fim, a doutrina da eleição e predestinação não deve ser motivo de tristeza, desespero ou descontentamento. Nem mesmo deve servir de motivo para causar divisão entre o povo de Deus. A doutrina da eleição e predestinação é uma gloriosa verdade que deve servir de conforto para todo cristão genuíno.

Realmente somente Deus conhece o destino final de cada um de nós. Enquanto isso, a Bíblia nos encoraja a assegurar nossa chamada e eleição (2 Pedro 1:10). Perceba que não é para Deus que precisamos confirmar nossa eleição, mas para nós mesmos. Isso é possível através de uma vida de santificação em conformidade com a vontade do Senhor.

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