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As Duas Testemunhas do Apocalipse

As duas testemunhas do Apocalipse é outro tema bastante discutido entre os teólogos, e que também desperta a curiosidade de muitos cristãos. O texto onde as duas testemunhas são citadas está em Apocalipse capítulo 11. Vejamos os versículos principais:

E darei poder às minhas duas testemunhas, e profetizarão por mil duzentos e sessenta dias, vestidas de saco.
Estas são as duas oliveiras e os dois castiçais que estão diante do Deus da terra.
E, se alguém lhes quiser fazer mal, fogo sairá da sua boca, e devorará os seus inimigos; e, se alguém lhes quiser fazer mal, importa que assim seja morto.
Estes têm poder para fechar o céu, para que não chova, nos dias da sua profecia; e têm poder sobre as águas para convertê-las em sangue, e para ferir a terra com toda a sorte de pragas, todas quantas vezes quiserem.
E, quando acabarem o seu testemunho, a besta que sobe do abismo lhes fará guerra, e os vencerá, e os matará.
E jazerão os seus corpos mortos na praça da grande cidade que espiritualmente se chama Sodoma e Egito, onde o nosso Senhor também foi crucificado.
E homens de vários povos, e tribos, e línguas, e nações verão seus corpos mortos por três dias e meio, e não permitirão que os seus corpos mortos sejam postos em sepulcros.
E os que habitam na terra se regozijarão sobre eles, e se alegrarão, e mandarão presentes uns aos outros; porquanto estes dois profetas tinham atormentado os que habitam sobre a terra.
E depois daqueles três dias e meio o espírito de vida, vindo de Deus, entrou neles; e puseram-se sobre seus pés, e caiu grande temor sobre os que os viram.
E ouviram uma grande voz do céu, que lhes dizia: Subi para aqui. E subiram ao céu em uma nuvem; e os seus inimigos os viram.
(Apocalipse 11:3-12)

As diferentes interpretações sobre as duas testemunhas do Apocalipse:

Ao longo da História do cristianismo, muitas sugestões de interpretações foram dadas. Não vou analisar as interpretações defendidas por algumas seitas, pois isso desviaria nosso foco, mas, nesse texto, vamos considerar as principais interpretações defendidas pelos cristãos:

  1. As duas testemunhas são Enoque e Elias: dentre todas as interpretações, talvez essa seja a mais popular entre os cristãos (disputando esse posto com a próxima interpretação). Geralmente essa é a posição predominante entre os pré-milenistas dispensacionalistas, que adotam a interpretação futurista do Apocalipse e pré-tribulacionista. O principal ponto de defesa para que as duas testemunhas seja o Profeta Elias e Enoque é o fato de que eles foram os únicos homens que foram para o céu sem passar pela morte. De certa forma, então eles foram “guardados” para essa missão final, onde, finalmente, experimentarão a morte e, logo depois, ressuscitarão.
  2. As duas testemunhas são Moisés e Elias: essa posição é bem semelhante a anterior, com a diferença de que ao invés de Enoque, a outra testemunha será Moisés. A principal defesa fica por conta de que as duas testemunhas possuem características que lembram os dias desses homens na terra, como “ferir a terra com toda sorte de pragas“, “poder para fechar o céu, para que não chova” e “converter as águas em sangue“. Outro ponto utilizado é o fato de que Elias e Moisés foram os personagens presentes na transfiguração de Jesus (Mt 17:3). Ainda sobre Elias, tanto essa interpretação quanto a anterior, geralmente utiliza a profecia de Malaquias (cap. 4:5,6), para defender uma possível volta de Elias.
  3. As duas testemunhas são dois cristãos desconhecidos: nessa interpretação as duas testemunhas serão dois cristãos ainda anônimos que se levantarão no período final durante a grande tribulação e atuarão no espírito e poder de Elias e Moisés, algo semelhante ao que ocorreu com João Batista (Lc 1:15-17).
  4. As duas testemunhas são o Antigo e Novo Testamentos: essa é uma posição menos conhecida defendida, por exemplo, por Martyn Lloyd-Jones, onde as duas testemunhas são referências simbólicas ao Antigo e ao Novo Testamento.
  5. As duas testemunhas é a verdadeira Igreja: essa é a interpretação predominante entre a posição reformada. Nessa posição as duas testemunhas é um símbolo que representa toda a Igreja militante ao longo dos tempos.

Quem são as duas testemunhas do Apocalipse? Qual a interpretação mais coerente?

Reconheço que esse tema é alvo de grandes debates, e entendo que quem pensa diferente de mim, seja devido à corrente escatológica adotada ou não, logicamente não concordará com minha posição, mas isso é algo comum quando o assunto é escatologia.

Particularmente, creio que a posição mais coerente é a última interpretação citada no tópico anterior, ou seja, defendo que as duas testemunhas no Apocalipse simbolizam toda a Igreja verdadeira. Não pretendo fazer uma grande exposição sobre minha defesa para que o texto não fique demasiadamente grande e cansativo, mas vou apresentar, resumidamente, alguns pontos fundamentais nessa defesa:

  • Estilo literário do Apocalipse: o livro do Apocalipse é muito rico em simbologia, esse padrão permeia o conteúdo do livro inteiro. Em uma interpretação coerente do livro, não podemos “literalizar” um texto nitidamente simbólico. No próprio capítulo 1 já temos um aviso claro que haverá muita simbologia no livro e que não devemos tentar interpretá-las de forma literal (Ap 1:20). A simbologia pode ser notada até mesmo nas pequenas cartas individuais às sete Igrejas da Ásia Menor. Outra característica marcante do Apocalipse é o extenso uso de conteúdo do Antigo Testamento na composição do livro. João escreveu para irmãos que conheciam as Escrituras, e que facilmente poderiam perceber e interpretar tais ocorrências.
  • O capítulo 11: entendendo o padrão simbólico do livro e sua fundamentação no Antigo Testamento, o capítulo 11 pode ser interpretado de uma forma mais coerente sem apelar para algo literal que “destoa” com o padrão já estabelecido. Quem interpreta esse capítulo de forma literal, dirá que nos dois primeiros versículos João descreve uma futura reconstrução do templo em Jerusalém. Porém, quando entendemos as características literárias do livro, naturalmente se percebe que o termo “santuário de Deus” simboliza a Igreja verdadeira. Isso está de acordo com outras referências (1Co 3:16,17; 2Co 6:16; Ef 2:21) onde essa expressão é utilizada para descrever a Igreja. Quanto à medição do santuário, podemos concluir com base no contexto imediato, a referência paralela (Ap 21:15) e o pano de fundo do Antigo Testamento (Ez 40:5; 42:20; Zc 2:1), que essa medição do santuário significa separá-lo de tudo que é profano, para que esteja perfeitamente seguro e protegido. O santuário é aceito, enquanto o pátio é rejeitado. Em outras palavras, essa medição simboliza a separação do povo de Deus do povo profano. Essa interpretação está diretamente ligada aos capítulos 7 e 9 do Apocalipse, onde o povo de Deus é selado.
  • Os títulos da Igreja em Apocalipse: no livro do Apocalipse, a igreja é “chamada” e representada de maneiras diferentes como: sete candeeiros, reis e sacerdotes, 144 mil, anciãos, santuário de Deus e, agora, no capítulo 11, de testemunhas.
  • O fato de serem duas testemunhas: segundo a tradição daquela época, para que um processo tivesse validade, era necessário pelo menos o testemunho de duas pessoas (Nm 35:30; Dt 17:6; Mt 18:16; Hb 10:28). Logo, a referência às duas testemunhas indica a credibilidade e veracidade de suas palavras. Essa interpretação corresponde ao relato de Lucas 10:1, onde Jesus separa os setenta discípulos em dupla, e enviava seus missionários dois a dois, e isso claramente demonstra que a expressão “duas testemunhas” enfatiza a tarefa missionária da Igreja.
  • Duas oliveiras e dois candeeiros: as mesmas figuras são encontradas no livro de Zacarias (4:1-7), onde se referem provavelmente a Josué e Zorobabel, representando os ofícios pelos quais Deus abençoou Israel. Aqui, as duas oliveiras e os dois candeeiros são símbolos da Palavra de Deus proclamada pela Igreja.
  • O fogo que sai de suas bocas: outro ponto que não pode ser interpretado de forma literal. Mais uma vez temos uma referência do Antigo Testamento para explicá-la. Assim como o fogo do juízo e de condenação saiu da boca de Jeremias para devorar os inimigos de Deus (Jr 5:14), sendo esse fogo um símbolo da palavra pronunciada por Jeremias, no Apocalipse o mesmo princípio é utilizado para se referir ao fato da Igreja que, através de seus ofícios, anuncia os juízos de Deus e condena os ímpios com base na Palavra de Deus, e essa condenação realmente resulta em destruição (Mt 18:18).
  • O poder sobrenatural: da mesma forma com que Moisés recebeu autoridade para ferir a terra com pragas e tornar a água em sangue (Ex 7:20), e Elias orou para que o céu fosse fechado de modo que não chovesse (1Rs 17:1), assim também a autoridade conferida Igreja, através de seu ministério, expõe o mundo ímpio que rejeita a mensagem do Evangelho ao julgamento e condenação por parte de Deus. Isso é uma verdade real ensinada nas Escrituras. O Senhor envia punição ao mundo iníquo em resposta às orações da Igreja (Ap 8:3-5), e assegura que a Igreja verdadeira tem autoridade, pelo ofício de levar o Evangelho genuíno diante do mundo, trazer juízo (Mt 16:19; 18:18,19; Jo 20:21-23). O próprio versículo 5 do capítulo 11 deixa claro que qualquer um que causar danos aos verdadeiros seguidores de Cristo, será igualmente destruído.
  • As testemunhas são mártires: a palavra grega traduzida por testemunha é martyria, que também significa “mártir” e “proclamador”. Esse termo sempre é empregado ao povo de Deus no livro do Apocalipse.
  • As testemunhas são derrotadas aos olhos dos homens: no capítulo 11 as duas testemunhas morrem, e seus corpos ficam expostos enquanto o mundo comemora. No capítulo 13 somos informados que a Besta faz guerra contra os santos e os vence. Porém, vemos que esse período de aparente derrota dura pouco (Mt 24:22; Ap 20:7-9). Esse será o período onde a Igreja será duramente perseguida, e como instituição da forma como nos organizamos hoje, desaparecerá do mundo. Nesse período os cristãos nominais mostrarão sua falsa fé ao renunciarem o Evangelho, e os verdadeiros cristãos serão duramente perseguidos, presos e até mortos. Aos olhos dos homens a Igreja estará por baixo, porém, à medida que o sangue dos santos é derramado, acontece a vitória que os olhos ainda não veem (Ap 12:11). Esse é o período anunciado por Jesus durante o Sermão Escatológico (Mt 24; Mc 13; Lc 21) chamado de grande tribulação, e que o Apóstolo Paulo menciona como “a apostasia” (2Ts 2:3). O próprio Jesus enfatiza que será um momento tão difícil que se os dias não fossem abreviados nem mesmo os eleitos suportariam. Esse momento acontecerá exatamente na hora determinada por Deus, o no dia em que as testemunhas terão terminado o seu testemunho (Ap 11:7). Os corpos das testemunhas serão expostos na praça da grande cidade que espiritualmente se chama Sodoma e Egito, onde o nosso Senhor foi crucificado (Ap 11:8). Essa descrição simbólica significa que a Igreja estará “morta” no meio do mundo anticristão. Isso fica claro pelas cidades utilizadas nesse símbolo.
  • As testemunhas ressuscitam: o mundo estará comemorando por acreditarem ter vencido a Igreja e silenciado sua voz. O Evangelho não os atormenta mais. É nesse cenário que as duas testemunhas são ressuscitadas, ficam de pé e são chamadas ao céu. Perceba o que ocorre no versículo 15, com o toque da sétima trombeta que anuncia a introdução do dia do juízo. Essa ressurreição simboliza de forma maravilhosa a segunda vinda de Cristo com o arrebatamento da Igreja aos céus. A Igreja que parecia derrotada, em meio a um mundo completamente anticristão, agora é levantada vitoriosa e ascende ao céu numa nuvem de glória. Note a expressão “e os seus inimigos os viram“. Não se trata de um momento secreto. Semelhante ao capítulo 6, um terremoto também precede o momento do juízo, e o pavor dos ímpios é revelado. Eles dão glória ao Deus do céu. Essa “glória” que eles dão não é uma conversão, ao contrário, é o terror que tomará conta de seus corações. As duas testemunhas, que a pouco pareciam mortas, agora são levadas ao céu. Esse é o momento descrito por Paulo em 1 Tessalonicenses 4:16,17 e 1 Coríntios 15:52. Os perseguidores que contavam vitória se apavorarão ao contemplarem o Deus irado que se assenta no trono, e os antes perseguidos, agora serão glorificados, e também receberão a tarefa de participarem do julgamento do mundo incrédulo (1Co 6:2). Nesse exato momento o mundo estará maduro e pronto para o juízo final. Esse será o momento do acerto de contas. Esse é o momento do terceiro ai.

Sem desrespeitar meus queridos irmãos em Cristo que adotam outro tipo de interpretação, penso que eles, na tentativa de descobrir a identidade dessas duas testemunhas, infelizmente acabam perdendo o prazer de desfrutar do conforto que há nessa passagem para a Igreja de Cristo quando entendemos que nós, cristãos verdadeiros, povo escolhido do Senhor com a tarefa de proclamar o verdadeiro Evangelho, é quem somos as duas testemunhas. Podemos ser perseguidos e até mortos pelo mundo, porém em Cristo, somos mais que vencedores, e haverá o dia em que ressuscitaremos e reinaremos eternamente com nosso Deus.

Aplicativo de Estudo Bíblico

2 Comentários
  1. Rosilene Camargo O usuário diz

    As duas testemunhas sao: ENOQUE E ELIAS.

  2. Eduardo Ribeiro O usuário diz

    Daniel, parabens pelo texto esclarecedor sobre as variadas formas de interpretacoes sobre o livro de apocalipse. mas pra termos uma visao completa gostaria que mostrasse tambem a visao das chamadas seitas. Que Deus o abencoe!

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