O Que é o Milênio no Livro do Apocalipse?

O Milênio é um reino de mil anos descrito no capítulo 20 do livro do Apocalipse, a única passagem bíblica que fala explicitamente sobre um reino milenar. Sem dúvida, o Milênio é o tema mais debatido dentro da escatologia bíblica entre os cristãos.

As interpretações sobre o Milênio, ou o Reino Milenar mencionado nessa passagem, são tão divergentes que levaram à formação de pelo menos quatro posicionamentos principais acerca desse tema.

Além dessa divisão principal em quatro escolas distintas, cada escola possui subdivisões, na medida em que há também divergências até mesmo entre os defensores de cada uma delas. Portanto, torna-se praticamente impossível abordar em um único texto todas as variações de pensamentos sobre o Milênio.

Muitos dos cristãos são leigos nos assuntos mais complexos da teologia, de modo que um aprofundamento em determinados temas torna a compreensão difícil e a leitura extremamente cansativa para muitos.

Portanto, para garantirmos a objetividade e clareza deste texto, conheceremos de uma maneira não exaustiva as principais interpretações sobre o Milênio, e também analisaremos, com muito respeito, qual a interpretação que parece ser mais coerente com a Palavra de Deus.

As principais interpretações sobre o Milênio

Como já dissemos, existem quatro interpretações principais sobre o Milênio. Basicamente os pontos discutidos em tais interpretações são os seguintes:

  • Quando o Milênio ocorrerá? Antes ou depois da Segunda Vinda de Cristo?
  • O Reino Milenar deve ser entendido de forma literal e física, ou simbólica e espiritual?
  • Quem são os indivíduos citados em Apocalipse 20 que participam do Milênio?

As quatro posições que se propõem a tentar responder tais questionamentos são: Amilenismo, Pós-Milenismo, Pré-Milenismo Histórico e Pré-Milenismo Dispensacionalista. A seguir conheceremos brevemente o que cada uma delas entende sobre o Milênio.

O Amilenismo e o Milênio

Embora o termo Amilenismo transmita uma ideia de que não exista um milênio, não é isso o que essa corrente escatológica defende. O Amilenismo entende sim que há um Milênio descrito no capítulo 20 do Apocalipse, entretanto não o interpretam como um reino literal de mil anos com Cristo governando sobre a terra após a sua vinda.

O Amilenismo defende que o Milênio já foi iniciado na primeira vinda de Cristo, e terminará com a Sua segunda vinda, quando haverá a ressurreição geral dos mortos, o Juízo Final e o estabelecimento do novo céu e da nova terra. No Amilenismo, o Milênio ocorre com o reinado dos santos com Cristo nos céus, conectado com a expansão da Igreja e o avanço do Evangelho na terra.

O Pós-Milenismo e o Milênio

O Pós-Milenismo, como o próprio nome sugere, entende que o Milênio também ocorrerá antes da segunda vinda de Cristo, porém, ao contrário do Amilenismo, o Pós-Milenismo entende que o Milênio será um período de grande paz e prosperidade resultante da pregação do Evangelho em todo mundo.

Logo, para o Pós-Milenismo o mundo tende a melhorar antes da volta de Cristo, de modo que o Milênio será caracterizado pela maioria dos habitantes da terra respeitando a Palavra de Deus, numa espécie de cristianização do mundo. Após esse período, Satanás será solto e Cristo o destruirá em Sua segunda vinda, condenando-o eternamente.

O Pré-Milenismo Histórico e o Milênio

O Pré-Milenismo Histórico defende um reino literal de Cristo na terra durante mil anos que será iniciado com a Sua segunda-vinda. Cristo governará a partir de Jerusalém e será um período sem igual na terra.

No final do Milênio, Satanás estará solto e enganará as nações influenciando-as à guerrearem contra Jerusalém e o governo de Cristo. Então, Jesus destruirá as nações rebeldes juntamente com Satanás, lançando-os em condenação eterna. Após isso, haverá o Juízo Final e o início do estado eterno.

O Pré-Milenismo Dispensacionalista e o Milênio

Também defende que o Milênio será literal na terra, e começara após a segunda fase da segunda vinda de Cristo. Diferente do Pré-Milenismo Histórico, essa posição estabelece um tratamento completamente distinto entre Israel e Igreja, ou seja, Deus possui dois propósitos: um com relação à terra e ao povo de Israel, e outro relacionado com o céu e a Igreja.

Para os Pré-Milenistas Dispensacionalistas, Jesus em Sua primeira vinda tentou estabelecer o Reino de Deus na terra, porém foi rejeitado pelos judeus. Então, Deus adiou esse plano e começou a tratar com a Igreja.

Somente após finalizar seus propósitos com a Igreja é que Ele retomará Seu plano para com Israel, e isso ocorrerá principalmente no Milênio, onde as promessas do Antigo Testamento serão cumpridas literalmente na restauração e exaltação de Jerusalém e do povo judeu sob todo o mundo gentio.

Nessa posição escatológica, o Milênio durará mil anos literais, e Jesus estará governando visivelmente num trono em Jerusalém, e será um momento de grande paz e prosperidade sobre a terra.

As nações adorarão a Deus em um Templo reconstruído em Jerusalém, onde também haverá novamente a oferta de sacrifícios de animais, porém não serão ofertas propiciatórias, mas ofertas memoriais em referência à morte de Cristo pela humanidade.

As pessoas viverão normalmente nessa terra maravilhosa, haverá nascimentos e mortes, já que o pecado e a morte ainda não estarão extintos como ocorrerá no novo céu e na nova terra. Entretanto, o mal será amplamente restringido com a prisão de Satanás.

Durante esse reinado, a Igreja dos santos ressurretos estará habitando a Nova Jerusalém, uma cidade celestial que estará pairando nos ares sobre a terra, e, em ocasiões especificas, os crentes poderão descer à terra para participarem de alguns julgamentos ao lado de Cristo.

No final desse período Satanás será solto, enganará as nações e fará uma guerra final contra “o acampamento dos santos“, e Cristo então os derrotará definitivamente. Depois disso haverá o julgamento perante o grande trono branco, onde todos os ímpios ressuscitarão para receberem a condenação eterna no lago de fogo.

Para saber mais sobre as diferentes visões escatológicas citadas aqui, leia os textos: “As diferentes correntes escatológicas” e “Diferenças entre Amilenismo, Pré-Milenismo, Pós-Milenismo e Dispensacionalismo“.

Como interpretar o Milênio?

Em todas as posições citadas acima há entre seus defensores cristãos genuínos, que possuem compromisso com a Palavra de Deus e que também são muito capacitados no assunto. Portanto, antes de tudo, creio que esse tema não deva ser motivo de divisões entre os cristãos.

Com isso, quero dizer que o fato de alguém defender uma posição ou outra, não o torna um herege, muito menos um seguidor de “seitas” como alguns erroneamente afirmam. Este assunto é realmente muito difícil, sobretudo por tratar de coisas ainda futuras, as quais não temos ainda o completo discernimento.

Na verdade, todas as diferentes interpretações possuem suas dificultes particulares, portanto devemos analisá-las à luz da Bíblia como um todo, e julgar qual delas parece ser mais coerente com a Palavra de Deus.

A seguir, falarei muito brevemente qual a minha posição particular sobre esse assunto. Tratarei esse tema eliminando posição por posição, para que o entendimento fique mais claro.

Começando pelo Pós-Milenismo, sei que essa posição foi muito popular durante muitos anos, e defendida por grandes homens de Deus. Porém as guerras, sobretudo do século 20, fizeram com essa posição perdesse espaço.

Para mim, a expectativa de um mundo maravilhoso antecedendo a volta de Cristo contrasta com várias passagens bíblicas que afirmam a contínua e crescente tensão entre o mundo decaído e incrédulo com os seguidores de Cristo. O próprio livro do Apocalipse deixa isso bem claro. Logo, para mim parece claro que o ensino bíblico é de que o mundo irá de mal a pior, até que Cristo venha.

Também tenho sérias dificuldades em aceitar a forma geralmente preterista que muitos pós-milenistas interpretam algumas passagens bíblicas. Como esperam por um mundo melhor, geralmente os pós-milenistas entendem que vários eventos escatológicos já estão no passado, como por exemplo, a grande tribulação e a apostasia mencionada pelo Apóstolo Paulo em 2 Tessalonicenses 2. Ainda sobre o Pós-Milenismo, penso que Apocalipse 20 não dá qualquer apoio à defesa dessa corrente escatológica.

Falando agora sobre as posições pré-milenistas, posso dizer que o Pré-Milenismo Histórico é uma visão muito mais equilibrada do que o Pré-Milenismo Dispensacionalista. Para mim, esta última posição, que também é a mais recente dentro do cristianismo, possui sérios problemas e acaba sendo totalmente confusa.

A distinção radical entre Israel e Igreja presente no Dispensacionalismo, biblicamente penso ser injustificável. Sobre isto, podemos rapidamente dizer que qualquer distinção entre judeus e gentios já foi abolida, e Deus possui apenas um único povo, a noiva, a Igreja (At 13:32-39; Gl 3:28,29; Cl 3:11; Ef 2:14,19; 1Pe 2:9).

Focando agora na questão do Milênio, não há base bíblica para afirmar que Deus adiou seus planos e o estabelecimento de Seu Reino. Nesse ponto, prefiro concordar com Jó ao dizer que “nenhum dos Teus planos pode ser frustrado” (Jó 42:2).

A questão é que o objetivo do ministério de Jesus não foi oferecer um reino político a Israel, restaurando o reino de Davi, ao contrário, quando quiseram fazê-lo rei, Ele se recusou (Jo 6:15). O próprio Jesus foi categórico ao afirmar na ocasião de seu ministério que o Reino de Deus não viria com visível aparência (Lc 17:20-21).

É importante também entendermos o caráter presente e futuro do Reino de Deus, ou seja, já foi inaugurado (Mt 2:2; 4:23; 9:35; 27:11; Mc 15:2; Lc 16:16; 23:3; Jo 18:37), está em prosseguimento (Mt 24:14; Rm 14:16,17; 1Co 4:19,20; Cl 4:11) e será completamente consumado (1Co 15:50-58; Ap 11:15).

Também podemos colocar como um problema das visões pré-milenistas, especialmente o Dispensacionalismo, a grande diferença entre o Milênio citado em Apocalipse 20 com o Milênio que elas defendem, além da falta de qualquer referência bíblica no Antigo Testamento acerca de um reino terreno futuro de mil anos.

Sei que há muitas referências no Antigo Testamento que são utilizadas por pré-milenistas para tentar justificar tal posição, porém eles falham na interpretação de profecias que naturalmente se referem a volta de Israel do exílio babilônico, ou à Igreja do Novo Testamento, ou até mesmo ao novo céu e a nova terra. Não há necessidade de um reino terreno temporário para que tais profecias se cumpram, nem mesmo a obrigatoriedade do cumprimento literal de todas as profecias.

No Novo Testamento encontramos um ótimo exemplo sobre isso. Em Atos 15:14-18, Tiago interpreta uma profecia registrada no livro do Profeta Amós de maneira não-literal. Em Amos 9:11,12, a profecia fala sobre o concerto do tabernáculo caído de Davi, para que “possuam o restante de Edom e todas nações” que são chamadas pelo nome do Senhor.

Já em Atos, Tiago entendeu que essa profecia se cumpriu quando Deus chamou os gentios à salvação, tornando judeus e gentios um só povo em Cristo. Logo, nem todas as profecias do Antigo Testamento devem ser interpretadas de maneira estritamente literal.

Apesar de tudo isso já citado, os argumentos ainda podem até parecer fracos para contestar as visões pré-milenistas. Portanto, para concluir, quero citar algumas perguntas que não consigo encontrar respostas para elas dentro do Pré-Milenismo:

  1. Se haverá um reino milenar e literal após a segunda vinda de Cristo, por que não há qualquer referência sobre isso nos Evangelhos e nas Epístolas do Novo Testamento?
  2. Por que no Sermão Escatológico (Mt 24; Mc 13; Lc 17) Jesus apresentou uma descrição detalhada sobre os acontecimentos que iriam ocorrer, e não citou em nenhum momento um reino milenar futuro?
  3. Se o reino milenar futuro diz respeito principalmente às promessas feitas ao povo de Israel, por que Jesus nunca falou nada sobre ele aos seus discípulos que eram judeus? Isso não teria os confortado de algum modo?
  4. Ainda no Sermão Escatológico, Jesus foi claro ao dizer: “Eis que de antemão vos tenho dito tudo” (Mc 13:23). Se Ele afirmou ter dito tudo acerca do fim dos tempos, por qual motivo ele não citou o Milênio? Não creio que Ele tenha se esquecido justamente do reino milenar futuro.
  5. Pedro foi um dos discípulos que estava presente quando Jesus pronunciou o Sermão Escatológico, e pessoalmente ouviu as palavras do Mestre. Então por que em sua segunda epístola (2Pe 3) ao falar sobre a segunda vinda de Cristo, ele não fala nada sobre um reino milenar futuro? Será que talvez seja porque Jesus não o ensinou nada sobre isso? Para o apóstolo Pedro, haverá a segunda vinda de Cristo, o julgamento de todas as pessoas e o início do estado eterno, com o mundo sendo “purificado” transformando-se em novos céus e nova terra.
  6. Como explicar o retorno de crentes glorificados para uma terra ainda imperfeita, onde existe pecado e morte, mesmo que isso seja em ocasiões específicas? Isso não seria uma violação da finalidade da glorificação?
  7. Como explicar o convívio do Cristo glorificado e de pessoas em corpos glorificados, juntamente com pessoas ainda vivendo em corpos de carne e sangue? Que estranha convivência haverá entre pessoas que são imortais com pessoas ainda mortais?
  8. O que acontecerá com as pessoas que morrerem no Milênio literal? Para onde elas irão? Será que ressuscitarão imediatamente?
  9. Como será um mundo em que Cristo estará em um trono físico governando? Como Satanás conseguirá manipular as pessoas a se rebelarem contra uma presença tão visível e notória de Deus? Se isso de fato ocorrer, qual foi a eficácia dos mil anos de paz e prosperidade?
  10. Como encontrar base bíblica para defender a ideia de salvação após a vinda de Cristo? As pessoas durante o Milênio precisarão crer em Jesus para serem salvas? Se sim, como alguém então não crerá diante de um reino literal de Cristo na terra? Isso não será injusto com quem viveu antes desse período, e não contrariará a doutrina bíblica de que a fé é crer no invisível (Hb 11:1)?
  11. A ideia da retomada dos sacrifícios durante o Milênio, mesmo que memoriais, não significa um retrocesso considerando a excelente explanação do autor da Epístola aos Hebreus onde claramente ele coloca todas essas coisas como algo temporário?
  12. Se o reino milenar futuro exige um julgamento após mil anos da segunda vinda de Cristo, como entender o ensino de todo o Novo Testamento de que o Juízo Final segue imediatamente à segunda vinda Cristo? Também como explicar o fato de a Bíblia se referir a apenas um único juízo, ao contrário do que ensina o Pré-Milenismo?
  13. Se o Pré-Milenismo exige pelo menos duas ressurreições (em alguns casos até mais de três), como explicar a doutrina bíblica que haverá apenas uma única ressurreição (Jo 5:28,29; Jo 6:39-54; 11:24)?

Estes são apenas alguns dos questionamentos que me fazem rejeitar a posição Pré-Milenista, entretanto, respeito muito quem consegue ignorá-los (ou respondê-los, quem sabe?) e, mesmo assim, defender tal posição.

Bem, se considero que o Pós-Milenismo e as formas de Pré-Milenismo falham em ter fundamentação bíblica suficiente, só me resta agora o Amilenismo. Sob esse ponto de vista, vamos brevemente entender alguns pontos acerca do Milênio do capítulo 20 do Apocalipse.

O Milênio e a recapitulação do Apocalipse

Para compreendermos o Milênio citado no capítulo 20 do Apocalipse, precisamos considerar a organização e o estilo literário do próprio livro. O Apocalipse é organizado em sete seções paralelas e progressivas, o que também chamamos de “leitura de recapitulação”.

Nesse sistema, entende-se que no Apocalipse a mesma história é contada várias vezes de ângulos diferentes, de modo que em cada uma delas a narrativa vai ficando mais clara e intensa.

Uma alternativa a leitura de recapitulação é a leitura de sucessão, que entende que um capítulo sucede o outro cronologicamente. Esse método possui muitas fraquezas, principalmente em explicar o fato de que, no Apocalipse, temos pelo menos sete referências claras à segunda vinda de Cristo, ou seja, se organizarmos o Apocalipse dessa forma cronológica, perceberemos que o mundo acaba sete vezes. Claro que isso não faria qualquer sentido. Para saber mais sobre isso, leia o texto “Leitura de Sucessão ou Recapitulação em Apocalipse“.

Se lermos o Apocalipse entendendo que cada capítulo sucede o outro cronologicamente, então o capítulo 20 seria a secessão natural dos eventos do capítulo 19. Se no capítulo 19 é descrita a segunda vinda de Cristo, e no 20 o Milênio, então obviamente conclui-se que o Milênio sucede o volta do Senhor.

O problema é que, como já vimos, a Bíblia exaustivamente ensina que o evento que sucede a segunda vinda de Cristo é o Juízo Final e o estabelecimento do novo céu e nova terra. Logo, a interpretação mais coerente é a de que no capítulo 20, a história novamente está sendo recontada.

O capítulo 19 termina com a descrição do dia do Juízo Final, e o capítulo 20 nos leva novamente ao início de nossa presente dispensação. É exatamente a mesma coisa que acontece entre os capítulos 11 e 12 do Apocalipse.

No capítulo 11, temos a descrição da segunda vinda de Cristo e do dia do juízo, quando é anunciado que “chegou, porém, a tua ira, e o tempo determinado para serem julgados os mortos, para se dar galardão aos teus servos, os profetas, os santos e aos que temem o teu nome, tanto aos pequenos como aos grandes, e para destruíres os que destroem a terra” (Ap 11:18).

Já no capítulo 12, voltamos ao início do período do Novo Testamento, com o nascimento, a ascensão e a coroação de Cristo. Essa “volta” no tempo é inegável até mesmo entre os pré-milenistas. Na verdade, se compararmos os capítulos 11-14 com o capítulo 20, perceberemos um paralelismo muito claro. Por exemplo:

  • A restrição do poder de Satanás (Ap 12:5-12; cf. 20:1-3).
  • Com tal restrição, há um longo período de expansão do Evangelho, onde é notório o poder e o testemunho da Igreja (Ap 11:2-6; 12:14ss; cf. 20:2).
  • Um breve período de intensa e terrível perseguição de Satanás contra os seguidores de Cristo (Ap 11:7ss; 13:7; cf. 20:7ss).
  • A descrição da segunda vinda de Cristo para juízo (Ap 11:17,18; 14:14ss; cf. 20:11).

Portanto, fica fácil entender que o capítulo 20 pertence a uma nova seção paralela que está mais uma vez recontando a história, porém agora dando mais detalhes sobre a derrota definitiva de Satanás (Ap 20:10), sobre o Juízo Final (Ap 20:11-15), e nos levando mais além com a descrição maravilhosa do novo céu e a nova terra (Ap 21; 22).

O Milênio e o simbolismo do Apocalipse

Para compreendermos essa passagem, precisamos ter em mente que o uso de simbolismos no livro do Apocalipse é predominante. Nessa passagem do capítulo 20 não é diferente. Um exemplo claro disso é a aplicação da palavra “corrente” com a qual Satanás foi preso. Ora, creio que ninguém espera que Satanás seja preso literalmente com correntes, certo?

Se a descrição da prisão não deve ser entendida literalmente com correntes, chaves e poços, por que o número exato de mil anos precisa ser? Sabemos que os números no Apocalipse possuem uma importância simbólica muito grande, então por qual motivo precisamos entender justamente o número 1000 como literal?

Caso alguém ainda tenha alguma dúvida sobre o emprego de linguagem simbólica no Apocalipse, basta responder algumas perguntas bem simples:

  • Alguém acredita que Jesus tenha a aparência literal de um Cordeiro com sete chifres e sete olhos conforme descrito em Apocalipse 5:6?
  • Será que literalmente uma mulher grávida, vestida de sol, com a lua debaixo dos pés e uma coroa de doze estrelas, foi perseguida por um dragão (Ap 12)?
  • Será que surgirá um monstro com dez chifres e sete cabeças saindo do mar (Ap 13)?
  • Será que o sangue dos ímpios escorrerá por 296 km (Ap 14:20)?

O número 1000 é utilizado no Apocalipse como símbolo de completude, e não deve ser entendido literalmente. Para saber mais sobre isso, leia o texto “Como estudar o livro do Apocalipse?“.

A prisão de Satanás por mil anos

Os versículos 1 ao 3 do capítulo 20, descrevem o aprisionamento de Satanás. Ao lermos o Apocalipse é importante lembrar-mos dos destinatários primários desse livro: os cristãos do século 1. Esses irmãos estavam sendo duramente perseguidos pelo império, tinham seus bens confiscados, eram presos, e, finalmente, mortos nos centros de espetáculos romanos.

Olhando para a realidade desses cristãos, a impressão que temos é de que Satanás estava vencendo. Do ponto de vista humano, o Dragão estava realmente conseguindo destruir a Igreja.

Mas o Apocalipse traz àqueles irmãos a notícia de que há muito mais além do que os olhos humanos podem ver. Por mais que as coisas estavam difíceis, a mensagem revelada ao Apóstolo é de que o Cordeiro têm o livro nas mãos, Ele controla todas as coisas, Deus é soberano, o poder do maligno está limitado e a Igreja é mais que vencedora.

Segunda a Bíblia, o aprisionamento e derrota de Satanás ocorreu com relação à primeira vinda de Cristo, ou seja, durante Seu ministério, com Sua morte, ressurreição e coroação. O próprio Jesus testificou sobre isso, ao responder aos blasfemos fariseus: “Como pode alguém entrar na casa do valente e roubar-lhe os bens sem primeiro amarrá-lo? Só então poderá roubar-lhe a casa” (Mt 12:29).

Nessa passagem, a palavra grega original para “amarrar” é exatamente a mesma que em Apocalipse 20:2 é utilizada para a palavra traduzida como “segurar”.

Ainda no ministério de Jesus, temos outros exemplos acerca da derrota de Satanás. Certa vez Jesus enviou setenta discípulos com a missão de pregar o Evangelho. Quando retornaram, eles estavam muito felizes porque até os demônios lhes eram submetidos ao nome de Jesus. Então Jesus disse: “Eu via a Satanás caindo do céu como relâmpago” (Lc 10:17,18).

Perceba como Jesus relaciona a queda de Satanás com o avanço da pregação do Evangelho. O mesmo principio pode ser notado no episódio em que os gregos foram procurar por Jesus. Na ocasião Jesus disse: “Chegou a hora de ser julgado este mundo; agora será expulso o príncipe deste mundo. Mas eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim” (Jo 12:31,32).

Da mesma forma como no exemplo anterior, a palavra grega para “expulsar” no Evangelho de João, é a mesma utilizada em Apocalipse 20:3 para “lançar”. Mais uma vez o Evangelho de Cristo é apontado, pelo próprio Cristo, como a derrota de Satanás.

Antes da primeira vinda de Jesus, a revelação especial de Deus estava restrita apenas ao povo de Israel, sendo que as demais nações estavam presas sob as correntes da enganação de Satanás, que as mantinham em completa ignorância.

Mas perceba que Jesus falou que com Sua morte Ele atrairia a “todos”, ou seja, não só judeus, mas gregos, romanos, etc. Com isso, entendemos que o poder do Dragão foi limitado, no sentido de que ele não pode impedir o avanço do Evangelho no mundo segando as nações como fazia anteriormente.

O aprisionamento de Satanás pode ser visto no modo como alguns poucos galileus fizeram com que o Evangelho fosse anunciado em todo o mundo civilizado. A limitação do poder de Satanás pode ser vista no próprio contexto histórico do livro do Apocalipse, onde uma Igreja formada majoritariamente por camponeses e pessoas simples, conseguiu enfrentar e resistir ao Império Romano, o maior império do mundo. Roma caiu, mas a Igreja continua de pé.

O Apóstolo Paulo também falou sobre isso ao escrever aos Colossenses, dizendo que Cristo triunfou sob os principados e potestades na Cruz (Cl 2:15). Já o escritor da Epístola aos Hebreus escreveu dizendo que a morte de Cristo destruiu o diabo (Hb 2:14; cf. 1Jo 3:8).

Também é importante entender que, apesar de Satanás estar amarrado, ele não está completamente inoperante. Ele age dentro das limitações impostas a ele. Ele persegue a Igreja levando alguns cristãos até mesmo à morte, mas não pode impedir que a pregação do Evangelho seja expandida, pois as trevas espirituais que cobriam as nações foram dissipadas, e os eleitos de todo o mundo foram atraídos à Cristo (Rm 8:30).

Entretanto, o mesmo capítulo 20 nos adverte sobre um período em que Satanás será solto, e novamente sairá a enganar as nações, recrutando os incrédulos para uma batalha final contra a Igreja de Cristo (Ap 20:7-10).

Esse período será os dias da grande tribulação, os dias em que haverá a grande apostasia como o Apóstolo Paulo escreveu (2Ts 2:3), o período em que o Anticristo pessoal e escatológico se manifestará. Esse período é o que Apocalipse 20 chama de “pouco tempo de Satanás“, e precede imediatamente o retorno glorioso do nosso Senhor.

O reinado dos santos no Milênio

Entendemos o que significa o aprisionamento de Satanás em Apocalipse 20. Agora resta-nos entender o que significa o reinado dos santos citado no mesmo capítulo. Quando o livro do Apocalipse se refere a tronos, seja o de Cristo ou o de Seu povo, tais tronos estão localizados no céu, como por exemplo, em Apocalipse 4:4. Em apenas três ocasiões o Apocalipse cita tronos na terra, e em tais ocasiões trata-se do trono de Satanás e do Anticristo (Ap 2:13; 13:2; 16:10).

Logo, a ênfase desse reinado está no céu e não na terra. A prova é que os que se assentam nos tronos são as almas dos mártires, os que foram “decapitados por causa do testemunho de Jesus“, bem como todos os outros cristãos que já partiram no Senhor, ou seja, “tanto quantos não adoraram a besta“. Lembrando que o próprio livro do Apocalipse ressalta que essas almas estão no céu (Ap 6:9-11).

Vale uma observação sobre o versículo 4 que, no grego, não há a expressão “vi ainda”, dando a sugestão de que o grupo que está sentado no trono é diferente do grupo de almas contemplado por João.

Logo, a conexão do Milênio com a terra está relacionada à prisão de Satanás, isto é, ao período entre a primeira e a segunda vinda de Cristo, com a pregação do Evangelho e a expansão da Igreja, terminando pouco antes desse momento, que justamente coincide com o “pouco tempo de Satanás“, onde ele será solto e a Igreja será duramente perseguida.

Já no céu, esse período se estende até o exato momento da volta de Cristo, onde as almas dos santos terão seus corpos ressuscitados.

O Milênio, a primeira ressurreição e a segunda morte

Um ponto que também vale nossa atenção é a menção sobre a primeira ressurreição feita nesse capítulo (Ap 20:5,6). Se essa ressurreição se refere a uma ressurreição corporal, então necessariamente ela deve coincidir com a segunda vinda de Cristo, e nesse caso os pré-milenistas estariam certos.

O problema é que toda a Escritura aponta para uma única ressurreição que ocorrerá quando Cristo voltar para julgar todos os homens. Portanto, é perfeitamente possível e aceitável que o texto esteja estabelecendo um contraste entre a primeira e a segunda morte. A primeira morte tem então um caráter corporal, e a segunda tem um caráter espiritual, ou seja, a primeira é preliminar e a segunda é final.

Logo, a primeira ressurreição seria espiritual, e a segunda seria a ressurreição do corpo. O próprio Novo Testamento se refere à regeneração como um tipo de ressurreição espiritual, ou seja, o novo nascimento (Jo 5:24-29; Jo 11:25,26; Rm 6:11; Ef 2:6; Cl 3:1-3). Portanto, quem passa por essa ressurreição não tem parte na segunda morte, isto é, a morte espiritual com a condenação eterna ao lago de fogo (Ap 20:14).

Há também quem interprete essa primeira ressurreição no sentido de que os santos que morreram estão vivos agora no céu com Cristo, mas penso que, em última análise, tal interpretação também terá origem na regeneração do individuo quando vivo aqui na terra.

Para resumir, podemos entender que os salvos morrem apenas uma vez, fisicamente, mas ressuscitam duas vezes, espiritualmente e corporeamente na segunda vinda de Cristo. Já os ímpios morrem duas vezes, fisicamente e espiritualmente, ressuscitando apenas uma única vez para o juízo de Deus.

Por isso que a segunda morte não tem autoridade sobre aquele que tem parte na primeira ressurreição, pois este está vivo com Cristo e justificado nos méritos de Sua obra na cruz.

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O que podemos concluir sobre o Milênio?

O Milênio é uma doutrina bíblica, e a expressão “mil anos” aparece em seis versículos do capítulo 20 do livro do Apocalipse (vers. 2-7). Portanto, de modo algum devemos rejeitá-lo, mas também não somos obrigados a aceitar qualquer interpretação sobre ele.

Sei que esse é um tema muito complexo, e que todas as posições, inclusive a que eu defendo, apresentam suas dificuldades. Porém, precisamos deixar claro acima de tudo que a Palavra de Deus é inerrante e infalível, ou seja, não há qualquer erro ou contradição nela.

Se nossas posições escatológicas possuem dificuldades em alguns pontos, tais dificuldades estão firmadas em nosso erro humano de interpretação da perfeita Palavra de Deus.

Ademais, também sabemos que há mistérios que não nos foram revelados, mas devemos ter a plena certeza de que tudo ocorre conforme a soberana vontade de Deus, por mais que não compreendamos.

Mais uma vez ressalto que essas discussões são secundárias, e o importante é que Pré-Milenistas, Amilenistas e Pós-Milenistas concordam que Cristo voltará, julgará todos os homens, condenará eternamente Satanás, seus agentes e os incrédulos ao lago de fogo, e os santos viverão eternamente com Ele no novo céu e na nova terra. Se mil anos antes, ou mil anos depois, diante de uma eternidade inteira isso é só um detalhe.

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